Percebia-se uma discreta cumplicidade entre o Cardeal Richelieu e moça que viera na carruagem. O nome dela era Lady Clark. Havia tornado se amiga da jovem rainha e parou ao seu lado demonstrando que tinha algo confidencial a lhe dizer. As duas se afastaram um pouco do centro dos olhares e o Cardeal Richelieu não as perdia de vista. Alguma coisa que Lady Clark disse à Ana da Áustria acabou lhe causando intenso mal-estar. Voltaram para o lugar onde estavam e Richelieu sorriu novamente com aquele ar da história do urubu brevetado. Era uma noite muito quente naquela da festa. O salão tinha gente demais, vestindo roupa demais, suando demais, velas acesas demais, e janelas fechadas demais. Estava abafado, malcheiroso e sufocante. Mas ninguém arredava pé. Por isso, a Rainha pediu que sua criada que fosse até seus aposentos reais e pegasse dois lenços rendados para enxugar o suor que fazia marcas na maquiagem. A criada subiu ao pavimento superior e não esperava encontrar ninguém. Mas quando abriu a pesada porta enfeitada de fios de ouro do aposento real, encontrou lá dentro, mexendo nas coisas da rainha, Lady Clark. - Senhora? O que faz aqui? Perguntou a criada. Lady Clark disfarçou a surpresa. Linda, com um sorriso encantador, caminhou em direção da serviçal, irradiando simpatia. - Oh! Eu estava de passagem e ouvi um ruído silencioso. Pensei que fosse algum rato que havia invadido os aposentos reais. A criada não entendeu muito bem esse negócio de "ruído silencioso" mas naquele tempo criada não tinha carteira assinada, nem CLT e nem coisa nenhuma e uma Lady era uma Lady. Nem percebeu quando a linda intrusa se aproximou e tirando um punhal que trazia escondido sob a saia redonda de Ala de Baianas, disse sorrindo: - Sinto muito minha querida, mas você não deveria ter vindo aqui. Por isso, terei que lhe dar uma certeira punhalada no peito. - Mas a senhora vai estragar meu uniforme de gala! - Amanhã, no seu enterro, a rainha lhe dará outro. E cravou o punhal entre os seios da criada que gemeu, rodopiou e caiu em decúbito barrigal. Certa de que a criada já era uma defunta fresca, Lady Clark apanhou da caixa de jóias, três alfinetes com cabeça de diamante, um dos mais valiosos presentes que o Rei Luiz XIII havia dado à Rainha Ana da Áustria e voltou ao salão abafado com toda a graça, o charme e o perfume da mulher francesa. Passou por Richelieu e os dois trocaram disfarçadas palavras. Um ruído silencioso
Capítulo XIII