Banho de sangue Capítulo XII
Depois que o escravo desafiou César em pleno Coliseu, o povo que lotava todas as dependências do estádio vibrava esperando que o Gladiador romano desse uma lição em regra no atrevido. O egípcio estava bem treinado pelo preparador Scolarium e confiando que essas lutas de gladiadores-arte já estavam superadas, usou a tática de que a defesa era o melhor ataque. Foram dez primeiros minutos de luta que mereceram vaias da torcida, porque o Gladiador fazia que ia, mas não ia e o escravo, desarmado, fingia que se defendia e se defendia mesmo. Só por volta dos quinze minutos, o escravo conseguiu acertar um murro na cara do Gladiador que tonteou, escorregou, quase caiu. O bandeirinha, no entanto, apitou impedimento alegando que o romano havia pisado numa casca de banana, fruta que nem existia naquele tempo.
Raivoso o Gladiador pegou a rede e jogou em cima do escravo imobilizando-o. O povo amava o Gladiador romano, que se encantava mais com a rede do que com o próprio César. Com o escravo envolto, tirou a espada e cortou a orelha do adversário. E a torcida se inflamou. Pedia a outra orelha e o Gladiador cortava. Pedia o nariz, e o Gladiador cortava, pediu um braço, depois outro braço, e o Gladiador atendia enquanto a galera gritava “olé” “olé” a cada lance. Pediu que o Gladiador cortasse aquilo e ele cortou, para delírio do público feminino, pois as mulheres de Roma adoravam escravos bem dotados. Esquartejamento completo, os maqueiros vieram levaram o infeliz para os vestiários. A galera vibrava com o primeiro gol dos Gladiadores.
A partida continuou. Terminou o primeiro tempo com o placar Gladiadores 4 x 0 Escravos. Scolarium fazia gestos, berrava à beira do campo e acabou sedo expulso pelo mediador. Negou-se a voltar com os sete escravos que ainda tinha para o segundo tempo. Os donos das funerárias brigavam para ver quem fica com os enterros dos quatro escravos mortos na fase inicial e como sempre acontecia a EFCB – Empresa Funerária de Caixões Baratos ganhou a concorrência, porque afinal o dono era Mausoleum, o irmão mais jovem de César.
Terminada a luta entre Gladiadores e escravos egípcios, o povo voltou às suas casas e os senadores, generais, visitantes, César e outras pessoas graduadas seguiram para a Casa Di Irene onde a bacanal prometia ser uma festa de arromba. Os Gladiares pegaram suas bigas importadas, cada um passou a mão numa loira e também seguiram para o Bacanódromo. Romano só pensava naquilo.
Só pensava naquilo é exagero. A tarde caiu, a noite chegou, o dia subiu e finalmente faltavam poucas horas para César ir visitar o Senado onde os seus membros o aguardavam para por em prática o plano sinistro de assassiná-lo com toda a delicadeza e pompa. Foi quando Calígula, que há vários anos desejava ser candidato a Imperador, reuniu seu grupo de adoradores do deus Argolo e prometeu cargos para eles e todos os seus parentes no Palácio Imperial, no Senado, na Prefeitura Municipal e até no exterior, pois estava muito a fim de conquistar a Grécia que era então uma república muito rica e cuja moeda estava mais alta que o dólar.
Por volta das nove horas, soaram as trombetas (era um tal de soar trombetas que o trombeteiro já estava com o pescoço tão grosso que já nem tinha mais número de colarinho para suas camisas) e César deu entrada no Senado. Na porta, quem o aguardava era Calígula. Abriu os braços e exclamou:
- Ave César. Finalmente o Sol chegou para iluminar esta Casa de Leis e outras mamatas!
César até se espantou ao ver Calígula tão receptivo e puxassacoso. Mas confiava nos Legionários da Tropa de Choque que cercavam o imponente Capitólio. Entrou confiante no plenário e logo que deu os primeiros passos levou a primeira punhalada do senador Horácius Espetadouros. E então, começou o empurra-empurra para que cada senador desse sua punhaladazinha enquanto Calígula gritava:
- Calma pessoal. Quem tem César pra todo mundo!
Será que César escapa desta? E cadê a Tropa de Choque Romana? E Calígula vai ou não conseguir ser eleito? Terá César o destino de Nero? O presidente do Senado vai renunciar ou segura as pontas?
* Foto gentilmente cedida por - Ana Paula - Magotteaux.