Capítulo X
Sem saber de nada, a honesta mulher de César é chamada à sala do Trono e vai imaginando em realizar grandes cenas de sexo explícito naquele lugar onde o imperador toma as mais sábias ou estúpidas decisões governamentais. Mas ela o encontra com aquela cara de mau, de quando aponta o polegar para baixo e determina a morte de alguém na arena do Coliseu. Sob o olhar amedrontado de Duílio, o Fofoqueiro e de Escamoteo, o Lacaio, César indaga ironicamente:
- Mulher. Quem é Scipião?
- Ó grande César. Amante dos amantes, maridos dos maridos. Paixão de minhas paixões. Ouvi dizer que Scipião é um mercador que traz de terras distantes as mais belas sedas, as mais belas jóias, os mais inebriantes perfumes.
- E na cama? Como ele se comporta?
- Na cama? Como poderei saber amado César, se sou sua mulher honesta que todos dizem que pareço honesta.
- Todos estão dizendo que ele e você estão mandando brasa e sinto na testa o peso dos cornos que batem nos portais quando cruzo uma porta deste palácio.
- Que infâmia! Quem poderia dizer uma coisa destas?
- Perguntemos a Duílio determinou César. E chamou o fofoqueiro para que testemunhasse:
- Teu nome?
- Duílio. Conhecido como o Fofoqueiro.
- Sua idade?
- Entre 35 e 47 anos. Papai nunca me registrou e eu nunca soube ao certo.
- Sexo?
- Depende, senhor mesário. Sem bebida faço bem. Se eu bebo as mulheres ficam dizendo que sou como uma vela cujo pavio não atrai a chama.
- Ó bruxuleante testemunha. O que sabes tu sobre a honestidade da imperatriz? Diga a ela, olhos nos olhos e não olhos nos seios!
– Determinou Coriolano. Duílio tremeu e disse:
- Ó imperatriz das imperatrizes. A mais bela que as flores silvestres que nascem nos campos e nas colinas. A mais pura que a água da Fontana Di Trevi que mitiga a sede do povo de Roma. Aurélia, a Cortesã, amiga de Clélia e Guaicurus está afirmando pela urbe, que o amor chegou entre vós e Scipião.
A mulher de César caiu num choro convulsivo. Não era um chorinho, nem um sambinha qualquer. Mas o choro mais sincero que Jacob, o do Bandolim, tocaria com todo o sentimento. E César resolveu que não tomaria nenhuma medida drástica antes de ouvir o que Aurélia tivesse a dizer. Ordenou a prisão de Scipião por via oral ou das dúvidas e mandou que buscassem Aurélia e Clélia, as Cortesãs e Guaicurus, o Traficante para uma acareação. Convocado o Conselho Imperial, César encaminhou-se para a Sala das Decisões, onde havia vinho, pão do mais puro trigo egípcio e os homens e as mulheres componentes do júri. No alto do pódium, César. À sua direita, o mesário do Conselho, Coriolano, o Traficante, que tinha também grande tráfico de influência. No banco dos réus, Aurélia, Clélia e Guaicurus pressentindo que haviam entrado numa fria. Ao lado, a mulher de César chorava lágrimas ferventes como a lava do Vesúvio. Aurélia é chamada a depor:
- Que fale Aurélia, a Cortesã.
Ordenou Coriolano
- Olhe nos olhos da mulher de César e diga se é verdade que ela é amante de Scipião.
Aurélia não se intimidou e declarou:
- Magnânimo mesário e respeitável traficante de mulheres lindas de todo o mundo. Meu testemunho não vem de minha boca e sim de meus ouvidos. Apenas disse no bacanal dos Senadores o que a mim foi confiado como segredo por aquela que realmente sabe de tudo. Ela é Aretamas, a Grega.
Foi um espanto geral. Desde de César, passando por Coriolano, Duílio e Guaicurus, todos tinha culpa no cartório e se Aretamas fosse chamada a depor a coisa iria acabar em CPR e todos virariam capa da revista “La Veritá Me Fa Male”. O mesário Coriolano indagou a Scipião:
- Scipião, o Mercador. És amante da mulher de César?
Será Scipião amante da mulher de César?
Será a mulher de César amante de Scipião?
E o povo já perguntava com maldade na pesquisa da Rádio JovemRoma: “Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?”.