Etíope 1 X Leão 0 Capítulo V
Inauguração do Coliseu. Lotado e demonstrando o orgulho dos romanos pela majestosa obra, apesar de dizerem que ela foi superfaturada e utilizou material de segunda. Balançava tanto que a Liga Romana de Luta Livre nem marcava desafios para lá. Mas o imenso público que lotava o estádio se dividiu entre gargalhadas e apelos dramáticos para que César poupasse a vida de um pequenino e frágil etíope que teria a missão de enfrentar um garboso leão de basta cabeleira, logo na segunda luta daquela data histórica. César, que não tinha, como Nero, cristãos para entreter massa, não quis mostrar-se magnânimo. Leão é leão e escravo é escravo. Ergueu o dedão da mão direita e virou-o para baixo. Não havia clemência. A luta seria realizada.
O leão, certo de sua superioridade, dava uma volta pelo picadeiro e demonstrava ao público que o aplaudia delirantemente, como era belo e forte. O etíope sem saber o que fazer ficou parado observando a exibição de seu adversário e olhava César com o rabo do olho. Talvez ainda pudesse escapar dessa. Soaram as trombetas e o leão era convocado a lutar. Deu um salto felino (ou seria leonino?) e uma patada no rosto do escravo etíope que rolou no solo como uma bolinha de golf. A multidão vibrava. A luta não deveria passar de três minutos. O leão já estava até de guardanapo no pescoço para saborear o raquítico escravo numa só bocada. Foi quando o etíope lembrou-se de que estava com tanta fome que havia comentado com os colegas que poderia comer até um leão. Levantou, abriu os braços e quando o leão se distraiu vendo que ele balançava as mãos, aproximou-se lhe aplicou um tremendo pontapé nas partes baixas que o Rei das Selvas perdeu todo a majestade. Urrou de dor e de espanto. Então o etíope saltou sobre ele e começou por comer sua orelha esquerda. Com tanta voracidade, com tanta fome, que menos de dez minutos depois, do leão só sobraram os ossos no meio do picadeiro. O público que lotava o Coliseu pela primeira vez foi tomado de súbita fúria. Aos berros de “marmelada! Marmelada!” Iniciou a depredação da construção, deixando marcas que até hoje podem ser vistas nas fotos do enorme circo. Jogavam pedras no camarote de César e o divino teve que sair protegido pela guarda pretoriana numa biga de entrega de melancias, fruta muito apreciada por quem ia aos circos de Roma.
Satisfeito, bem alimentado, o escravo etíope dava entrevistas aos jornalistas e sua foto seria estampada em todos os papiros da manhã seguinte.
O “Corriere de la Sera” acusava César de ter trazido leões mascarados, vindos da África apenas para ganhar dinheiro, namorar leoas loiras e comprar bigas do ano importadas.
Para se distrair, César e seus melhores amigos foram para a Casa Di Irene e promoveram uma bacanal que foi notícia em todo o Império. Na Etiópia foi proclamado feriado nacional e o povo saiu as ruas para receber o seu herói, o escravo que havia devorado o leão e nem precisou de faca e garfo.
Na bacanal, logo na entrada um jovem fazia amor com duas romanazinhas. Nas almofadas espalhadas pelo chão, todo mundo nú, bebendo vinho e chupando uvas. Mas numa sala secreta, os senadores, preocupados com repercussão negativa da estréia do Coliseu, tramavam o assassinato de César. Um escravo não podia comer um leão romano impunemente. Brutus, amigo de César tentou explicar que o leão era africano, mas Calígula afirmava que o leão era romano, tinha nascido no jardim zoológico e era uma das importantes esperanças de ser um astro na luta quando viessem os cristãos. Por dezoito votos contra três e duas abstenções os senadores decretaram a morte de César. Só tinham que realizar uma CPR – Comissão Parlamentar Romana naquela noite mesmo, assim que terminasse a bacanal. E lá foram eles atrás de mulheres, rapazes e bebidas.
César será mesmo condenado pela CPR? Ou irá renunciar ao trono e viver com Escamoteo, o Lacaio, numa ilha fiscal onde guardava milhões de moedas de ouro ganhas nas obras superfaturadas?