Os Devassos de Roma
 
 

 

Nas Garras do leão

 

Capítulo IV

     

 

 

Bigas alternativas vinham de todos os bairros de Roma e o trânsito ficou infernal. Os músicos já haviam soado suas trombetas para anunciar a chegada de César, mas o Imperador não conseguia se aproximar da porta do Coliseu, porque o povo, em luta com os centuriões atirava pedras, paus e travesseiros uns nos outros e a confusão estava formada.

César indagou a Escamoteo, o Lacaio, como fazer para chegar ao grande circo. Um deus não pode se atrasar por causa da plebe. Foi quando percebeu que a multidão abriu um caminho formando duas alas e liberava o tráfego para a passagem de uma biga gloriosa, puxada por dois cavalos brancos de penacho que tinham pose de coletor de impostos.

César perguntou:

- Quem vem naquela biga que o povo abre passagem tão humildemente e admirado Será Ben Hur?

- Não altíssimo dos altíssimos, deus dos deuses, divindade das divindades.

- Pare com essa puxação e responda à minha pergunta mísero lacaio ou mando que te corte a língua! Berrou César, indignado.

- Perdoe Augusto César. Mas não é Ben Hur quem vem na biga. É Aretamas, a Grega.

- Isso é mau. O povo está amando demais essa mulher. Ela começa a se transformar num perigo a estabilidade política da República. Onde é que essa mulher consegue tanto prestígio perante a plebe?

- Na cama, sublime César. Não há homem e nem mulher romanos que não sonham um dia estarem em seu leito na Casa de Irene, onde se dança e se rir...

- Pois então, chame a Legião de Choque e ordene que corte a cabeça de cada cidadão que esteja no meu caminho, para que eu tenha também minha pista livre.

E assim foi feito. Voou cabeça pra tudo quanto é lado e abriu-se uma avenida no meio da multidão. Então César ingressou imponente no Coliseu e subiu à tribuna de honra onde descerrou a placa de ouro onde se lia: “Esta é mais uma obra da Administração de Sua Divindade Augusto César. Ave César, Obras que duram séculos”.

Soaram de novo as trombetas e o povo delirava nas arquibancadas, gerais e cadeiras cativas gritando: “Leeeãooo. Leeãoooo”. Vinte mulheres maravilhosas rodearam o camarote de César que tinha o patrocínio da Vinícula Sangue de Vaca. Dona da exclusividade nas festas de Baco que se realizavam no palácio.

Soltaram o primeiro leão. O garboso animal parou frente ao camarote de César e disse:

- Ave César. Os que vão comer te saúdam!

E então soltaram o primeiro escravo, um pirineu que ergueu o braço e falou:

- Ave César. Os que vão virar chiclete de leão te saúdam!

César deu a ordem para iniciar o espetáculo e o povo delirava balançando bandeirinhas, mostrando cartazes “César, os brasileiros estão aqui”. Brasileiro sempre está em qualquer parte do mundo.

O imponente leão deu o primeiro bote e o pirineu saltou de banda. O leão deu o segundo golpe e o pirineu caiu de bunda. Foi aí que se estrepou. O leão foi devorando-o sob os aplausos entusiásticos da multidão que gritava: “Come! Come! Come!”.

O leão terminou a refeição, limpou a boca com um lençol branco, agradeceu aos aplausos e saiu da arena arrotando para mostrar satisfação.

Na cela, o escravo etíope que havia entrado de gaiato no navio, comentou com um colega condenado.

- Estou com tanta fome que comeria um leão desses.

Pois nesse momento um centurião abriu a porta de ferro e apontando o etíope determinou:

- Vem você, magrelo. Condenado gordo atrasa o espetáculo. Tem muita carne.

O etíope sem saber de nada, pulou de alegria. Pensou que fosse para as arquibancadas, pois tinha pagado ingresso. E quando percebeu estava dentro da arena. Enquanto metade do Coliseu lotado morria de rir ao ver aquele magrelo esperando o leão, outra metade pedia clemência á César para libertar o raquítico contendor. O etíope estava tendo seus 15 minutos de fama. César não sabia se levantava o dedão ou se abaixava.

 

 

Será que César vai oferecer clemência ao pequenino, subnutrido e frágil etíope que mal se agüentava em pé?

Haverá alguma coisa de piedade em seu maligno coração romano?

 

 

 
 
"Os Devassos de Roma"
Capítulo IV
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