Artimanhas do destino
Capítulo XXII
Aquela região de Passo de Los Tontos, um perdido município no interior do México, tão pequenino que nem consta dos mapas, sempre foi um paraíso de tranqüilidade. A cidade, de menos de dois mil habitantes, vivia apenas da fartura proporcionada pela zona rural. Cercada de grandes fazendas, onde as arvores, os pássaros canoros, o ar puro e a realidade, não de um meio ambiente saudável, mas de um ambiente inteiro. As águas do Rio Chacharrua, límpidas e frescas, onde os peixes podiam ser vistos das margens e para pescá-los nem era preciso o uso de varas ou anzóis, demonstravam que viver no campo torna homens fortes, sadios e felizes. Principalmente se forem, como no caso do Vale de Los Tontos, latifundiários poderosos e plantadores de “alfaces”, modo como se referiam à maconha que representava a força econômica da região. Nada abalava essa tranqüilidade pastoral e por isso, o que vinha acontecendo nos últimos dias, com um bando de párias que se diziam guerrilheiros sem causa, mas na verdade não passavam de pobres coitados sem teto, sem terra, sem lenço e sem documentos. Viviam da caridade alheia que recebiam dos chacharruanos graças às de uso exclusivo dos traficantes, que haviam ganhado de um guerrilheiro colombiano que passou por ali há dois anos seguindo viagem para Cuba onde desejava tomar aulas de oratória com Fidel Castro.
Um estranho que se apresentou com o nome falso de Estebam Mariño, tinha vindo quebrar a rotina de paz que envolvia todo o Solar das Esmeraldas Bienvenidas. Até o seqüestro que eles jamais haviam praticado, estava atormentando a vida de Don Augustin, um homem poderoso, mau e, no entanto um pai amantíssimo de uma filha e de um filho que as más e boas línguas do local, afirmavam que não eram seus, pois sua esposa, Doña Celestina, quando jovem e tão bonita que foi eleita Miss Passo 1938, era uma moça que não ia a lugar nenhum sem a companhia da mãe. Mas a mãe dela ia a qualquer lugar e levava a filha.
Exatamente nesta hora de turbulência, tão parecida com aqueles momentos em que os passageiros de um avião enfrentam durante uma tempestade e fazem fila na porta do banheiro e o piloto, pálido de espanto, fica pensando “porque é que eu não aceitei o convite de meu cunhado para trabalhar num táxi dele”, surgem dois homens e um motorista do FBI para atormentar Don Augusto que, realmente tinha a filha num cativeiro, mas havia se comprometido com o chefe Aztecano, que deixaria a polícia longe desse caso.
A fazenda estava triste. Até mesmo nos montes de feno, onde aconteciam os encontros amorosos do horário da tarde e também nos quartos em que, à noite, o amor tomava conta do silêncio e pelas paredes da casa, ecoavam gemidos e sussurros não havia alegria. Os passarinhos emudeceram. O céu sempre azul amanhecia cinzento e só não chovia porque os políticos influentes da Capital não deixavam, pois faturavam alto com a Mexidene, uma empresa estatal que cuidava das verbas contra a seca. Sem seca, sem verbas.
Então, inocentemente, Carmencita de Las Merces Gonzales, 32 anos, morena bonita e fogosa, que vivia na mansão em estilo mexicano por ser amante de Don Augusto e a família não se opunha, indagou ao dono da casa se os seqüestradores haviam mandado notícias, bem na frente dos dois homens e um motorista do FBI. Don Augustin arranjou uma desculpa esfarrapada, mas os americanos perceberam que estavam no caminho certo. Eles procuravam uma jovem chamada Maria Juana e ficaram convictos de que era filha de Don Augustin
- Muito bem!
Disse o agente Phillips.
- Agora a senhor non poder mais nos enganar. Maria Juana é sua filha e esta seqüestrada.
Para escapar da saia justa, isto é, da cueca justa porque Don Augustin jamais vestiria uma saia, ele deu pistas falsas para os agentes, na esperança de que eles pegassem um avião e voltassem para os EUA.
No cativeiro, Zeca Ó se decepcionava com o fato de que Bienvenida, no esplendor de seus quase 21 anos, ainda fosse virgem e ele e o Brutamontes a deixaram sozinha em sua esteira. Por volta de duas horas da madrugada, na escuridão do cativeiro, a porta foi aberta. Bienvenida dormia e foi acordada pelo toque macio-brutal de um homem...
Que homem é esse? Será o mesmo romântico estuprador que a atacava em seus aposentos? Depois da linda narrativa da beleza do lugar, não poderia terminar um trecho web-novela sem que houvesse sexo. Vamos ver se é isso mesmo.