Odeio-te porque te amo
 
 
 

Quem no feno ferra...

 

Capítulo XVIII 

 

 

Enquanto no cativeiro o brutamontes chegava afobado dizendo ao chefe que tinham um problema, no Solar das Esmeraldas Bienvenidas todos os que haviam vindo para passar o fim de semana se preparavam para regressas a Passo de Los Tontos. O automóvel, que os mexicanos insistiam em chamar de coche, tinha sido revisado pelo deputado provincial Juan Del Castillo Ybarra y Ybarra e estava pronto para a longa viagem pela estrada de terra que os levaria até a sede do município. Sarita havia tomado banho de salmora numa bacia e sentia-se bem. E o vulgo Don Esteban também se preparava para viajar, mas estava tentando uma desculpa para permanecer na mansão:

- Não sei se devo viajar deixando niña Bienvenida em mãos daqueles bandoleiros.

- Pode ir tranqüilo, Don Esteban, que nós cuidaremos do assunto. Respondeu Don Augustin.

- Tranqüilo não posso ir. Estarei preocupado o tempo todo. Só fiquei assim quando ainda era criança e meu pai perdeu o emprego.

- Mas porque seu pai perdeu o emprego.

- Porque naquele tempo os patrões eram muito exigentes. Papai trabalhava havia doze anos num laboratório onde fabricavam Griparmentol, um poderoso medicamento contra gripes e resfriados.

- Sim, sim. Eu tomei muito desse remédio quando tive gripes e resfriados. E que foi que aconteceu com seu pai, hein Don Esteban?

- Uma certa manhã, papai quebrou um dos comprimidos e foi demitido por injusta causa.

- Realmente é muito aborrecido um fato desses. Estar com uma filha entre seqüestradores não é tão grave como perder um emprego de doze anos num grande laboratório – Concordou Don Augustin.

O vulgo Don Esteban estava quase convencendo ao pai de Bienvenida a ficar na casa para ajudar a libertar sua filha, quando Sarita interveio:

- Não adianta nada o senhor ficar. E, além disso, eu conheço os bandidos e sei que não farão nenhum mal a niña Bienvenida. O cativeiro é confortável e eles sabem como fazer uma mulher sentir-se fêmea e desejada.

Mesmo contrariado vulgo Don Esteban teve que acompanhar o deputado Juan e la cantante Sarita. Embarcou no carro e iniciaram a viagem de volta.

Se nas grandes cidades a tarde cai como um viaduto, ali a tarde caía com a suavidade de uma folha seca que, no outono, se desprendesse da árvore.

Atrás do chiqueiro, no monte de feno, Francisco Del Campo tomava uma ardente aula de educação sexual com Santiaga Rosa e, peladão como sempre, Don Carlos de Las Nubes Azules, pai de Doña Celestina, fingindo que olhava os porcos, era o voyeur que assistia às lições de aulas práticas da cunhada Santiaga Rosa. A rotina voltava a casa em estilo mexicano e restava apenas a angustia de que os bandidos enviassem um mensageiro com as exigências para o resgate.

Foi quando uma nuvem de poeira denunciou que, pela estradinha de terra, vinha um automóvel na direção da casa de Don Augustin. Seria o porta-voz dos bandoleiros? Mas eles eram tão pobres que apenas alguns deles ainda tinha cavalos. Metade do bando havia comido os seus, já que carne de cavalo era um dos pratos preferido na região. Tanto que um primo de Don Augustin que tinha uma fazenda que fazia divisa com a dele, já estava criando cavalos transgênicos e tinha até um francês que estava ameaçando vir fazer uma passeata de protesto.

Francisco Del Campo, no esplendor de seus vinte anos, prolongava mais o que podia a aula de educação sexual:

- Já te dei três lições esta tarde, Chiquinho. Será que você ainda não aprendeu a lição de hoje?

- Não mestra Santiaga. Tive uma aula com Doña Celestina, mas ela me ensinou tudo errado.

- Tudo bem. Vamos repetir a lição número dois. Concordou a tia de Bienvenida.

Mostrando total dedicação ao seu aluno, deitou-se novamente sobre o monte de feno e ordenou:

- Venha Chiquinho. Vamos ver se agora você tira as dúvidas

E o jovem chacharruense iniciou a nova aula com a mesma potência das vezes anteriores. Quatro aulas práticas em uma hora e meia de permanência no monte de feno.

Aquele carro que havia sido denunciado pela poeira da estradinha chegava à porta da casa. Dois homens e um motorista desceram e bateram palmas no portão. A escrava Chumatela largou uma panela que estava areando e foi atender reclamando:

- Quando é que vão colocar uma campainha nesta casa?

Chegou à porta e recebeu os estranhos com um sorriso de aeromoça quando o avião está em pane e só ela sabe enquanto passageiros viajam tranqüilos:

- Pois não. O que os senhores desejam?

- Mim ser uma policial da FBI e quer falar com a sua patrão.

Chumatela estranhou a pronuncia e pediu:

- Por favor, esperem um momento.

E foi avisar Don Augusto que estava sentado numa cadeira da sala muito pensativo:

- Estão aí fora dois homens e um motorista que querem falar com o senhor. Dizem que são da polícia.

- Da polícia. E querem falar comigo?

- Sim senhor. E eles não devem ser mexicanos porque falam como os artistas de cinema.

- Serão norte-americanos?

 

 

Pois é. Serão norte-americanos? Falaram em FBI. Dá até para desconfiar. Havia alguma coisa de reino no podre da Dinamarca. Ou é ao contrário.

 

 

 
 
"Odeio-te porque te amo"
Capítulo XVIII
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