Cantante mas ordinária
Capítulo XVI
A movimentação era intensa na rica mansão construída com as famosas pedras chacharruas naquela manhã de domingo. Niña Bienvenida estava nas mãos dos guerrilheiros, apelido que eles mesmos se deram, porque na verdade não passavam de um bando de malandro que vivia às custas do povo, já que tinham armas de uso exclusivo dos traficantes.
Naquele vai e vem e num clima pesado, talvez uns 40 quilos na sala e cerca de 25 no resto da casa, Sarita Montimel, la cantante pensava em deitar-se após a noite causticante que tivera no cativeiro, mas a sempre curiosa Carmencita não largou o seu pé. Quando entraram no quarto que não tinha vista para o mar, porque naquela região só havia floresta, Carmencita não se agüentava mais:
- Como foi sua noite, Sarita? Os seqüestradores trataram você bem ou teve algum problema?
- No começo tive problemas. Fui obrigada a cantar quase uma hora acompanhada pelo Zeca Ó e sua guitarra. Eu, que sou uma artista que só se apresenta com orquestra. Mas depois.
- Conta, conta. Carmencita não se continha.
Sarita foi verificar se a porta do quarto estava trancada, olhou pela janela para ver se não havia ninguém tentando escutar a conversa. Então, deitou-se sobre a cama, ajeitou os travesseiros, um grande e um menorzinho. Pegou um maço de cigarros, colocou um entre os lábios, mas não acendeu. O Ministério da Saúde estava avisando que cigarro pode dar pigarro e uma cantora pigarreando é realmente um acontecimento trágico.
Carmencita sentou-se num banquinho que tem no quarto, só para ela sentar quando Bienvenida, ou seja, lá quem for começar a contar suas particularidades sexuais. E ficou aguardando a narrativa. Sarita deu um suspiro profundo e então começou a narrar o que se passou naquela noite de sábado para domingo:
- Tentei escapar de ser obrigada a chegar aos finalmente, exigindo que me pagassem uma quantia em dinheiro que eu sabia que eles não tinham.
- Quanto você pediu?
- Cinco mil dólares.
- E eles pagaram?
- Quase. Mas o bandido Zeca Ó lembrou daquela música que diz “que é que ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha”.
- Eu adoro essa música!
Exclamou Carmencita.
– Vi ainda criancinhas Sandy e Júnior cantando isso na televisão brasileira.
- Pois é. O plano era cortarem minha cabeça e aproveitarem o resto.
- E você? Como reagiu?
- Ora. Se iriam aproveitar o resto, melhor que eu ficasse com a cabeça, não é mesmo? Afinal como é que poderia me apresentar nas boites de México City sem a cabeça para eu poder fazer meus penteados da hora?
- Tem razão. Tem razão. E afinal, fizeram amor?
- Fui obrigada. Eu não tinha outra saída.
- Quantos deles?
- Os seis. Eram sete, mas o chefe Aztecano matou um deles.
- Pula esse pedaço. Conta o resto. Implorou Carmencita.
Sarita fez uma pausa. Olhou para o infinito como tentando reviver aqueles momentos:
- Foi trágico, Carmencita. Muito trágico. O primeiro era o mais corpulento da turma. Não tinham preservativos. Então usaram saquinhos desses que embrulham as coisas nos supermercados. Ele foi jeitoso, carinhoso. Mas os outros o apressavam porque estavam na fila. Veio o segundo e não tinha técnica nenhuma. O terceiro tentou, mas disse que sentiu câimbras.
- Um momento.
Interrompeu Carmencita.
- Você disse câimbras? Então...
- Então o quê. Indagou Sarita.
- Nada, nada. Apenas uma bobagem que passou pela minha cabeça. Tell me more. Tell me more...
- A melhor nota da noite eu dou para o chefe Aztecano. Ele acariciou-me com ternura. Disse palavras sussurradas no meu ouvido. Chegou até a dizer que me amava e poderia até se casar comigo. E depois... Ah! E depois... Ele realmente foi o must. Ele completou a noite e eu estava exausta. Mas agora sinto que não foi tão horrível...
- Puxa Sarita. Me dá o endereço desse cativeiro...
Dar o endereço do cativeiro? Essa Carmencita é louca de rasgar real a três dólares. Mas o espaço acabou e novas emoções só no próximo capítulo.