Cantante e Cara
Capítulo XIV
Os guerrilheiros pediram para Sarita deitar-se e organizaram uma fila. Estavam pensando em realizar uma sessão. Mas o chefe Aztecano ficou furioso. Ele não admitia que seus homens só pensassem em sexo. Sarita havia dito que faria qualquer coisa para que não a machucassem, e nem ela pensara nisso. Mas, como guerra é guerra, fez uma proposta:
- Tudo bem. Já entendi o que é que os senhores querem. Eu dancei, eu cantei, mas isso é diferente. Vamos acertar a parte financeira.
Os bandidos não esperavam por essa. Achavam que quando ela disse tudo, estava implícito que fazer amor também era parte do “tudo”.
- E quanto quer lá señorita para chegar a um acordo?
Sarita ouviu a pergunta do chefe e pensou um pouco. Ela precisava safar-se dessa situação precária e jogou alto:
- Cinco mil dólares. Mil por guerrilheiro e para o chefe vai de bonificação.
- Mas señorita... Nós non tenemos cinco mil dólares! Somos guerrilheiros pobres. Siem teto, siem emprego, siem credito no SPC.
- Então sinto muito, chefe Aztecano, mas nada feito.
Os bandidos se entreolharam. Zeca Ó, o guitarrista apresentou uma contraproposta:
- Tudo bien. Nós lhe pagamos os 5 mil dólares, cortamos sua cabeça fora e como diz aquela música de los niños brasileños, e o resto nos aproveitamos.
Todos concordaram. Sarita viu que a situação havia se complicado. E afinal, não tinha mais nada que fazer aquela noite, vão se os dedos e ficam os anéis. Saíram todos do cativeiro e lá fora organizaram a sessão. Distribuíram senhas e cada um teria meia hora para receber as carícias da cantante.
- Muito bem!
Disse o chefe Aztecano.
- Temos que ser organizados. Sin orden non ai progresso.
Eram quatro horas da madrugada quando alguém abriu lentamente a porta dos aposentos de niña Bienvenida. Ela já havia adormecido. Tinha esperado por tantas horas que já não tinha no olhar toda a ternura que pretendia dar ao desconhecido que a possuíra e muito menos a rosa mais linda que houvesse. Mais tranqüilo, o homem não foi, como na noite anterior, um brutamontes atacando a vítima. Ficou na dúvida se acordava a linda jovem ou se voltaria na noite seguinte. Mas Bienvenida percebeu que ele estava no quarto. Perguntou:
- Quem é você?
Ele não respondeu. Deitou-se ao lado da jovem e começou a gemer. Gemeu alguns minutos, levantou-se da cama, caminhou arrastando-se em direção à porta e só teve tempo de dizer “isso é hora para eu ter esta maldita câimbra?”, antes de desaparecer pelo corredor escuro.
Positivamente aquela não foi uma noite romântica no Solar das Esmeraldas. Cupido certamente estava de folga e não havia ninguém para substituí-lo.
Por trás da montanha, o sol começava a rotina da alvorada. Como sempre, por trás da montanha. Ele nunca nascia pela frente da alterosa que dominava o vale. Em poucos minutos a alvorada iria clarear a casa e começaria o barulho na cozinha. Doña Celestina e a escrava Chumatela começariam a jogar lenha no fogão para fazer o café matinal.
Todos pulariam da cama para entrar na fila do banho porque só havia um banheiro e um chuveiro em toda a casa. E sem tomar banho, ninguém iria provar as escaldantes matinais e os respectivos sólidos.
O vulgo Don Esteban não via a hora de ir até ao esconderijo do chefe para dizer-lhe poucas e boas. Ou melhor, para dizer-lhe muitas e más. Na fila do banho, Carmencita morrendo de curiosidade indagou a Bienvenida:
- Como foi?
- Não foi.
- Como não foi?
- Ele teve câimbra.
- Mas deu para reconhecer?
- Não. Não deu.
- Será que vai voltar esta noite?
Tiveram que interromper a conversa quase sussurrada porque Don Augustin deu o berro:
- Que é que vocês estão fofocando?
- Estamos falando sobre o que faremos hoje pela manhã. Se vamos caminhar uma hora ou se colhemos algumas flores silvestres. Respondeu Carmencita.
-Eu ouvi falarem em câimbra, afirmou Don Augustin.
-Não papai.
Cortou Bienvenida
- Falamos Coimbra. Flores silvestres de Coimbra.
Como Don Augustin não sabia o que era Coimbra e a fila começou a andar, porque o sogro terminou seu banho, encerrou o assunto dizendo:
- Como será que está Sarita Montemiel, La cantante?
É verdade. Como estará Sarita no cativeiro? É um belo suspense para fim de capítulo.