Um beijo fatal
Capítulo VIII
Viver naquele vale entre montanhas alterosas, verdadeiras reservas florestais e onde se sobressaia a gigantesca plantação de “alfaces” que se estendia até perder-se de vista, era realmente afrodisíaco. O ar puro, a casa sem iluminação elétrica, os passeios que podiam ser dados pelas florestas, tudo levava aquela gente da casa mexicana e estar permanente disposta a fazer amor e a sentir as vibrações que o sexo proporciona ao corpo e à mente.
No entanto, se havia um desejo que se poderia respirar com o ar puro de um lugar onde não havia poluição e o meio ambiente poderia ser chamado de ambiente inteiro, para a jovem niña Bienvenida, qualquer ação que pudesse lembrar a vida sexual, era terminantemente proibida.
Para seu pai, Don Augustin. Ela era ainda uma menina de nove anos, embora já estivesse com 18, estudasse em México City e morasse num pensionato que havia sido previamente escolhido por líderes políticos da mais alta confiança do grande latifundiário.
O que realmente se passava com Bienvenida na capital, seu pai jamais tomaria conhecimento. E se chegasse, a saber, de alguma coisa, certamente aconteceria a segunda tragédia que abalaria ainda mais a convivência da família.
Quando Bienvenida estava com 14 anos, após ler um romance bastante forte, sentiu vontade de, pelo menos, ser beijada pela primeira vez. Muito escondido mantinha um namorico platônico com Delgadinho Mogica, um garotão de 19 anos, filho de Pablito Delgado, um colono da fazenda. Delgado era um rapaz bonito, forte e simpático, embora andasse vestido pobremente, de pés no chão e trabalhasse pesado para ajudar o pai e mãe, era quase escravo de Don Augustin.
Após ter lido o romance, Bienvenida se atreveu a ir ao encontro de Delgado e tomada de um louco desejo, levou-o até um local que lhe parecia seguro, e ambos se abraçaram sem nenhuma maldade. Mas ela atreveu-se a beijá-lo na boca, para espanto do rapaz.
Foi o beijo errado, no lugar certo, na hora errada. Don Augustin vinha cavalgando pela plantação e viu a cena que lhe causou um furor que só não foi uterino porque ele é muito macho. Sacou da garrucha e deu três tiros certeiros no peito do rapaz, que caiu em decúbito dorsal e morreu em poucos minutos. Bienvenida quase teve uma parada cardíaca, mas por ali não havia nem parada de ônibus. Ela, em estado de choque correu pela plantação e foi avisar aos pais de Delgadinho que ele estava com cara, pinta e jeito de defunto.
Don Augustin seguiu para casa e lá ficou até ser chamado pelos empregados para tomar conhecimento da morte do rapaz. Só no dia seguinte chegou a polícia de Passo de Los Tontos, a sede do município. Quando o delegado Alfonso Del Portal examinou o cadáver e verificou que o rapaz morrera com três tiros certeiros no peito, logo percebeu que o assassino era Don Augustin porque, em todo o México daquele tempo, só existia uma garrucha de três canos e seu proprietário era o pai da menina Bienvenida. E ninguém tinha a pontaria que já dera a Don Augustin várias taças e medalhas em torneios de Tiro ao Alvo, realizados em toda região.
Pensou em dar ordem de prisão ao latifundiário, mas lembrou-se de seu poder político e econômico e teve a certeza de que na hora do julgamento, quem seria condenado a forca, seria ele, o delegado, por falso testemunho contra um cidadão que estava acima, no meio e abaixo de qualquer suspeita. O doutor legista do Instituto Médico Ilegal de Passos de Los Tolos atestou que o rapaz fora vítima de uma fulminante espinhela caída tendo morte súbita e surpreendente. E ninguém mais falou no caso.
Ao cair da tarde, porque lá jamais a tarde se levantou, Bienvenida recordou-se da tragédia e chorou compulsivamente ao pensar que o pai poderia desconfiar do que havia acontecido em seu quarto na madrugada anterior.
Mas, no barraco do guerrilheiro Aztecano, Don Estebam revelava a razão de sua vinda até o Solar das Esmeraldas Bienvenidas.
Ih! Como as palavras enchem rapidamente este espaço. A revelação vai ficar para o próximo capítulo. Desculpem, mas web-novela é como massa de pastel. Só fica boa se for bem esticada...