Odeio-te porque te amo
 
 
 

A missão de Don Estebam

Capítulo VI 

 

 

Enquanto señorita Carmencita vibrava com a narrativa de niña Bienvenida, Don Estebam Mariño Márquez, o estranho que viera passar o fim de semana no Solar das Esmeraldas Bienvenidas pediu que selassem um cavalo e partiu a galope para rumo incerto e ignorado.

Não era tão incerto e nem tão ignorado assim. Ele galopou cerca de meia hora até chegar a aldeia dos chacharruas onde tinha um encontro marcado com Aztecano Maia de Los Incas, o líder dos chacharruas sem pedras, que era o comandante de um grupo de pelo menos cinqüenta chacharruanos muito bem armados e treinados em guerrilha, que se especializavam em assaltar bancos de localidades distantes, desmanche de coches, uso e tráfico de drogas e compra e venda de algodão doce, que era sua alimentação predileta desde de pequeninhos.

Quando Don Estebam se aproximou do lugarejo, logo cinco chacharruas o pararam, fizeram descer do cavalo e indagaram:

- ¿Que quieres por aquí hombre?

- Vim para falar com chefe Aztecano.

- ¿E lo que quiere tu hablar con el Jefe? Indagou o mais perigoso dos cinco guerrilheiros.

- Vim falar de negócios.

Logo fizeram uma conferência e mandaram um dos bandidos avisar ao chefe que havia um estranho a sua procura. Voltou com a ordem de levá-lo até ao seu esconderijo.

Aliás, não era difícil chegar ao esconderijo porque a cada cem metros havia uma placa indicativa, com a seta e a frase “Esconderijo Del Jefe". Ele morava num barraco de madeira bem confortável. Tinha meia sala, meio quarto, meia cozinha e um pinico. Uma torneira de água fria e um chuveiro que seria a alegria do Ministro do Apagão, porque na parte de cima, ao invés de uma resistência, possuía um espaço para a colocação de brasas que aquecia a água. Deitado em sua rede, com dois facões, um revólver calibre 32, outro calibre 38 e uma metralhadora de uso exclusivo dos traficantes, Chefe Aztecano fumava um cigarro de palha fedorento. Mesmo deitado, recebeu o estranho, que se apresentou:

- Chefe Aztecano eu sou Don Estebam, representante do cartel de Cochabamba e tenho uma proposta a lhe fazer.

- En nuestra moneda ou en dolares? Quis saber o chefe do bando.

- Em dólares, respondeu sorrindo o visitante.

Isso interessou ao chefe que se sentou na rede e ofereceu uma almofada para que Don Estebam também se acomodasse.

- Quieres contratar um chacharruano para jogar futebol na Itália?

O visitante sorriu novamente.

- Estou falando de milhares de dólares por muitos e muitos anos.

- Ah! Compriendo. Vamos construir um prédio para el Ministério Del Trabajo?

- Não. Não é nada disso.

Chefe Aztecano irritou-se.

- Quieres tu fazer-me de Payaso?

- Não chefe. Estou falando de alfaces...

Na casa de pedras, niña Bienvenida recordou-se de que o homem que a fizera vibrar de prazer e emoção, não havia usado preservativo... E se ela engravidasse? Caiu a primeira lágrima, depois a segunda, a terceira e Bienvenida começou a chorar baixinho. A amiga Carmencita emocionou-se também e em seus olhos castanhos apareceu a primeira lágrima, a segunda lágrima, a terceira. Logo ambas choravam baixinho usando o lençol de cetim como lenço.

- Se eu engravidar, minha amiga?

- Isso não vai acontecer. Foi só uma noite.

- Sim. Foi só uma noite ontem, mas e se ele vier hoje? Sem camisinha?

 

 

Será que ele vai aparecer e ser tão descuidado? Mas também, pensa bem. Naqueles confins onde Judas perdeu a bota onde poderia comprar um preservativo seguro?

 

 

 

 

 
 
"Odeio-te porque te amo"
Capítulo VI
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