Odeio-te porque te amo
 
 
 

Conta tudo, menina...

Capítulo V 

 

  

A chegada dos convidados sexta-ferinos à bela casa em estilo mexicano, como já era de se esperar, mexia com todo o movimento rotineiro de segunda à quinta. O mais importante, porém, era o encontro entre la niña Bienvenida e sua grande amiga e confidente, señorita Carmencita que todos sabiam que era amante do pai de Bienvenida, o intragável Don Augustin. Logo as duas estavam fechadas nos aposentos de Bienvenida e colocavam os assuntos em dia.

- Que se passa contigo? Indagou Carmencita, logo que ambas ficaram a sós.

Amigas há cerca de dois anos, Carmencita conhecia Bienvenida como Eurico Miranda conhece as gavetas do Vasco da Gama. Bienvenida sorriu e abriu seu coração à jovem confidente.

- Você não perde um lance, hein? De fato algo muito estranho aconteceu nesta casa, hoje quando o sol despontava atrás das montanhas.

- Já sei. O sol despontou na frente das montanhas, como você sempre previu?

- Não. Foi uma coisa que até agora não sei se devo dizer deliciosa ou um atentado criminoso, vil e covardemente desprezível... Um homem entrou aqui no quarto, agarrou-me, beijou-me e tirando minha calcinha com habilidosa brutalidade, possui-me com a fúria de um animal selvagem sem fêmea há muitos meses...

Carmencita não pôde conter a curiosidade e ficou num estado de excitação que fez seu coração alcançar 145 batidas por minutos. Uma aceleração que só não causou medo de que morresse porque aquele cardiologista que inventou o CPMF no Brasil e é muito respeitado no México, havia dito certa vez que já vira batimentos mais rápidos. Carmencita não se continha de curiosidade:

- Quem foi? Quem foi?

- Não sei Carmencita. O quarto ainda estava escuro e ele ficou colocado contra a janela de tal maneira que só pude ver o seu vulto e sentir todo o seu peso. Ansiosa, Carmencita não se continha:

- Tell me more!! Tell me more!!

- Vendo que estava agradando, Bienvenida começou a valorizar ainda mais os acontecimentos de seu despertar.

- Ele possuiu-me como se fosse a primeira vez... Deixou em mim a semente da vida como se fosse a última.

Havia alguma coisa de Chico Buarque nessa frase, mas Bienvenida disse isso em 1940, bem antes dos festivais da Record.

- Estou molhadinha...Confessou Carmencita (por favor, deixe-me terminar minha bicadinha)... De suor. Que calor, não?

- Sei que foi alguém desta casa. Estou apenas esperando que anoiteça e ele volte a arrombar a porta de meu quarto e repita todo aquele fervor desta manhã... Eu não deveria pensar assim. Mas é mais forte do que meu desejo de ser pura e casta.

- Ah! Não vem com esse papo de que você era virgem... Pra cima de mim não, violão. Eu sei como você vem de México City, cheia de colares de diamantes, brincos e pulseiras de ouro e uma sacolinha de dólares... Já vi seu anúncio nos classificados de falsa enfermeira que atende a domicílio do “El Diário Nacional”

- Meu anúncio? Como você pode dizer isso?

- Está lá... “Bienvenida manos de veludo”...

- Quantas Bienvenidas achas tu que existe em México City?

- Milhares! Mas Bienvenida de Ybarra y Ybarra só há uma...

- Tem razão. Preciso tirar meu sobrenome do jornal. Mas o problema agora, Carmencita, é saber quem foi o homem que invadiu meus aposentos de donzela.

- Tomara que não seja seu pai... Porque se for ele, amanhã teremos um velório nesta casa. Afirmou Carmencita com cara de quem fala e faz...

 

 

Hmmm... Será que, contrariando a regra, o criminoso voltará ao local do crime?

 

 

 

 

 
"Odeio-te porque te amo"
Capítulo V
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