Um estranho no coche
Capítulo IV
Tendo sido deliciosamente estuprada em seu quarto à meia luz, niña Bienvenida foi tomar o café matinal com a família, tentando adivinhar qual daqueles homens que estavam à mesa, teria sido o misterioso atacante que invadiu seus aposentos. Não conseguiu identificá-lo, embora tivesse uma pesada desconfiança de que seria um deles. Terminada a primeira refeição, saiu rumo à varanda e na estradinha que dava acesso ao Solar das Esmeraldas Bienvenidas, erguia-se uma poeira, sinal de um carro se se aproximava da casa verde. Como era sexta-feira já se sabia quem era.
Naquela vasta fazenda a vida era tão rotineira que os moradores da grande casa em estilo mexicano que dominava o vale situado bem no interior do México já sabiam com a precisão dos meteorologistas da televisão de hoje em dia, tudo o que iria acontecer nos próximos vinte dias. Errar era muito raro. É verdade que algumas vezes Doña Celestina, mãe de Bienvenida (embora não se possa afirmar), ia à cidade mais próxima levando o guarda-chuva e não chovia. Outras vezes deixava o guarda-chuva em casa e caía uma tempestade dessas que param o trânsito na marginal do Rio Pinheiros ou enchem o canal do Mangue no Rio de Janeiro. Era a semelhança com os boletins meteorológicos da televisão de hoje em dia.
Nas sextas-feiras, quase sempre naquele horário entre o cantar do galo e o cacarejar da galinha botando um ovo, vinha pela estradinha de terra, levantando poeira, o automóvel conduzindo Don Juan Del Castillo Ybarra y Ybarra, irmão de Doña Celestina, supostamente mãe de la niña Bienvenida, que era deputado provincial em Passo de Los Tontos, a ridente capital do condado onde se situava a fazenda que, como todos os deputados, nunca comparecia à Câmara Provincial às segundas e sextas-feiras. Com ele vinha sempre a señorita Carmencita de Las Mercês Gonzales, acompanhada de sua amiga, também señorita, Sarita Montemiel, “La Cantante”, que como o povo a classificava. Era uma famosa cantora cuja voz se parecia tanto com a de Sarita Montiel, que ela acabou reduzindo o seu repertório a uma única canção. Cantava “La Violetera” e era muito aplaudida pelos admiradores do presidente brasileiro Don Fernando Henrique Cardoso, principalmente quando entoava aquele trecho da canção que diz “que no vale, mas que um real”.
Porém, nesta sexta-feira, vinha também en el coche (chamavam carro de coche) um estranho. Era Don Estebam Mariño Márquez, um homem que estava pela casa dos trinta anos, mas que era tão vaidoso e bem cuidado que parecia ter pelo menos uns três meses menos. Já havia feito uma cirurgia plástica que consertou suas orelhas de abano, outra que afilou seu nariz e que ele jurava ter sido realizada para tratar de um desvio do septo.
A estradinha de terra era bem cuidada, bem compactada porque os infelizes chuchurrauas, quando vinham de Chuchurraua carregando as enormes e pesadas pedras, eram obrigados a colocá-las no chão para um pequeno descanso. Na beira da estrada, laranjas maduras se perdiam pelo caminho. Não eram bichadas e nem tinha marimbondos nos pés. Apenas não eram recolhidas porque Don Augustin de Felipe Ybarra y Ybarra, homem muito severo, mau, déspota, péssimo caráter, arbitrário e violento, havia determinado que ninguém ousasse chupar uma só de suas laranjas para que a polícia federal jamais desconfiasse que, entre os seus lavradores e carregadores de pedras chuchurraus, houvessem “laranjas” infiltrados em seus prósperos negócios de plantação de alfaces, nome com o qual ele batizara toda a maconha que plantava em suas terras.
Enquanto os empregados da fazenda procuravam Don Carlos de Las Nubes Azules, o esclerosado pai de Doña Celestina que só andava nu e isso poderia chocar aos visitantes, niña Bienvenida aguardava ansiosa a chegada do carro ao terreiro da fazenda, para saber as novidades da cidade.
O motorista fez uma graciosa curva frente a varanda da linda casa em estilo mexicano exatamente quando o motor do carro ferveu e parecia que uma locomotiva resfolegante chegava à estação, como quando la niña Bienvenida, de quem o padre Tejuano duvidava de sua virgindade, seguia para México City, onde tinha um amor secreto.
Eu admito: neste capítulo não aconteceu nada. Mas no próximo, quem sabe?