O Pequeno Órfão
  
 
A verdade sobre Ana
  
Capítulo XXII

 

 

- Você está viva? Não pode ser! Porque não me procurou durante todos estes anos?

Ana sentiu que voltara no tempo. Acreditava sinceramente que nunca mais precisaria abrir aquela porta na memória. E ali estava B, diante de seus olhos, buscando todas as respostas que ela lhe negara por medo.

- Venha comigo, B. Há muito que precisamos conversar.

Ana puxou o seu antigo amor até uma pequena sala despojada, reservada para os parentes dos pacientes. Ela respirou fundo buscando no ar a coragem que lhe faltara.

- Aquela noite em que desapareci, estava resolvida a deixar a clandestinidade e me dedicar só a você e ao nosso bebê...

- Sim, foi o que combinamos! Interrompeu William, excitado, e sem coragem para perguntar qual teria sido o paradeiro da criança.

- Pois bem. Achei que deveria me despedir da militância com uma última e bombástica ação. Naquela madrugada saí de casa rumo à praça do bairro, para pintar de cor-de-rosa a bunda do cavalo de Duque de Caxias.

- Não... Suspirou o homem, levando a mão à testa.

- Sim, hoje parece uma estupidez, mas não na época. O fato é que fui capturada pela polícia e diante da tortura psicológica e da minha própria debilidade física, comecei a sentir fortes cólicas. Pensei que era nosso filho chegando!

- E o que era?

Perguntou William.

- Dor de barriga? Eu sempre tenho quando fico com medo!

- Claro que não. Eu não sabia, mas estava perdendo o bebê! Consegui fugir. Basílio Stalin e Nikita Silva estavam por perto e me recolheram até um aparelho. Mas era tarde demais. Perdi a criança.

Uma lágrima solitária rolou pela face esquerda de William (esquerda, entendeu a sutileza? Guerrilheiro, clandestinidade, esquerda...)

- Se você estivesse sossegada em casa... Desabafou, num típico comentário de ex-marido.

- Você tem razão. Assumo a culpa. E foi justamente por não poder enfrentá-lo e dar esta notícia que me afastei. Desde então, cada segundo de minha vida é um amargo pesadelo. Nunca deixei de lamentar a perda da linda existência que poderia ter tido ao seu lado. Fugi, tão logo soube que a criança morreu, deixando minha velha vida para trás. Transformei-me em meu próprio carrasco, tirando de mim o segundo bem mais precioso depois do bebê que assassinei: você, meu amor!

Ana caiu num pranto contundente. William abraçou-a com força.

- Mal sabia você que, ao se afastar, me punia duplamente. Disse, apertando a companheira.

Os dois permaneceram assim, por alguns minutos, até que Nicolau entrou na sala.

- Nikita!

Gritou William

- Você sabia da história toda! Porque nunca me contou que Ana estava viva?

- Bem, William...

Respondeu, constrangido.

- Naquela época eu estava muito envolvido com a militância. Ana era uma heroína para todo o grupo. Basílio e eu achamos melhor deixar os camaradas pensarem que ela era mais uma vítima da repressão.

- Você não tinha o direito!  Vociferou William.

- Que diferença iria fazer, querido?  Interrompeu Ana, segurando o braço do amado. Eu não queria mesmo ser encontrada por você. Não queria que você soubesse que matei nosso filho!

- Hmmm... Não sei nem como contar, mas... Basílio e eu cometemos um outro erro ainda maior... Gaguejou Nikita, com uma expressão transtornada.

Ana e William apenas encararam em silêncio o ex-companheiro de guerrilha.

Ele continuou:

- Procurem entender... Não ficaria bem uma líder guerrilheira em casa, cuidando de um bebê, quando o País precisava dela na luta pela libertação...

William avançou sobre Nikita, agarrando seu colarinho, e o pressionou contra a parede:

- Você matou nosso filho, seu monstro?

 

 

Matou ou não matou?

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XXII
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