O Pequeno Órfão
  
 
Um vôo para a morte
 
Capítulo XX

 

 

William não tinha idéia de como encontrar Tobias naquela cidade enorme, mas estava disposto a desenterrar velhos fantasmas do passado numa tentativa desesperada de salvar a vida da criança.

O táxi parou em frente a um pequeno prédio de apartamentos no Queens. O psicólogo conferiu o endereço anotado num cartão amarelado e subiu as escadas até o segundo pavimento. Ele bateu vigorosamente na porta do número 23, e um homem magro, na faixa dos 40 anos, de barba farta e grisalha, veio atendê-lo.

- Não pode ser! Disse o dono do apartamento a William, em português, com um sorriso largo no rosto.

- Sim, sou eu! Respondeu o visitante, envolvendo o velho amigo num abraço apertado.

Já dentro do apartamento, o homem serviu a William um café ralo, no estilo americano.

- Estou pensando em voltar para o Brasil. Não agüento mais tanta saudade daquela terra...

- Bem, agora você pode. Acaba de ser aprovada no congresso uma lei que anistia os exilados políticos. Informou William.

- Você é que foi esperto... Recomeçou sua vida com uma nova identidade e não precisou fugir para o exterior, como uma ratazana. Qual o seu nome agora?

- William Mascarenhas. Sou psicólogo.

O homem balançou a cabeça, surpreso.

- É, até que William combina bem com você. Aqui nos Estados Unidos uso meu nome verdadeiro. Nicolau.

- Para mim.

Disse William.

- você será eternamente o meu companheiro Nikita Silva.

- E você, doutor William, será para sempre o bravo Camarada B!

Na noite anterior, em Manhattan, Tobias foi conduzido a um carro sóbrio e grande. Depois de uma viagem relativamente curta, ele e os dois homens chegaram ao hotel luxuoso onde estava hospedada Luciana. O menino passou a noite numa cama grande, dividindo o quarto com os dois grandalhões.

Na manhã seguinte, enquanto William chegava a Nova York, Tobias era levado à presença da misteriosa líder do grupo.

A mulher recebeu a criança com um sorriso.

- Onde foram parar Miguel e Angelita? Perguntou Tobias.

- Eles estão onde merecem estar. Respondeu secamente Luciana.

O garoto respirou fundo, criando coragem para fazer uma pergunta dramática.

- Quando serei morto?

- Morto? Surpreendeu-se Luciana.

- Meus colegas não lhe falaram no caminho?

- Bem, ele não perguntou... Interrompeu um dos homens.

Luciana sorriu e acariciou a criança.

- Não fazemos parte de nenhum grupo criminoso. Sou diretora de uma organização não governamental que tem como objetivo combater o seqüestro e morte de crianças. Você está a salvo, Tobias. Estávamos há meses seguindo os rastros de Angelita e Miguel, e finalmente os capturamos. Eles foram entregues à Polícia e você vai voltar para o orfanato.

O pequeno órfão, ao contrário de se alegrar com a notícia, recebeu-a como mais um fardo em sua vida tão cheia de dores. Ele estava convicto de que não voltaria nunca mais para o orfanato. Seus olhos melancólicos fitaram a janela aberta e o céu bem azul daquela linda manhã de primavera. Ele não precisou de muito tempo para tomar uma atitude extrema.

Percorreu correndo os poucos metros que o separavam do parapeito e mergulhou no espaço, de braços abertos, como uma ave. Naqueles poucos segundos em que esteve em queda livre, pela primeira vez na vida sentiu algo parecido com a paz que tanto buscava.

 

 

 

William é o Camarada B!

Tobias pulou em direção à morte!

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XX
Carregando, aguarde por favor...
   CAMINHOS PARA A LUZ®           Art by   >> Ramon George Alle <<           Novela - O Pequeno Órfão - Capítulo XX               www.caminhosparaluz.com