

- Você é Tobias? Perguntou um dos grandalhões ao menino.
O pequeno órfão mal teve forças para sacudir positivamente a cabeça. Ele não agüentava mais sua vidinha de sofrimentos, e recebia com resignação a morte eminente.
- Você fez bem em se entregar, garoto. Nos poupou muito trabalho. Disse o homem, com um sorriso torto no rosto.
Na manhã seguinte, o psicólogo William Mascarenhas pisou no aeroporto JFK, em Nova York, meio atordoado pela noite mal dormida e pelo seu gesto inconseqüente.
- O que estou fazendo aqui, meu Deus? Deixando todos os meus compromissos no Brasil para procurar um órfão, em algum lugar desta cidade enorme!
Ele havia chegado à conclusão de que Angelita e Miguel levaram o menino para a América depois de seguir, durante todo o dia, os rastros da dupla criminosa. Os seqüestradores cometeram um erro primário: pediram ao mesmo táxi que os levou até o orfanato que aguardasse na sorveteria. Em seguida rumaram até o hotel barato onde estavam hospedados, buscaram rapidamente as malas já prontas e terminaram o trajeto no aeroporto. Como o desconfiado William havia anotado a placa do veículo, não foi difícil localizar o motorista e descobrir o itinerário das viagens. Com a ajuda da polícia, a identidade dos bandidos e o embarque para Nova York foram confirmados.
- Traficantes de órgãos? Espantou-se o psicólogo, ao descobrir que Angelita e Miguel eram na verdade Arlete e Mário, condenados foragidos, responsáveis pelo desaparecimento de dezenas de crianças.
- Vamos atrás deles! Agora! Implorou William. Mas os policiais apenas sorriram.
- Bom! Primeiramente a gasolina da viatura mal chega ao aeroporto... Em segundo lugar, questões internacionais vão além da nossa alçada...
O psicólogo percebeu então que se esperasse uma solução pelas vias legais seria tarde demais para o menino. Por sorte, seu visto para os Estados Unidos era válido, e com a ajuda de alguns amigos, conseguiu embarcar naquela mesma noite.
Em 1970, Camarada B desesperou-se ao perceber que, passadas 24 horas, sua amada, que desaparecera durante a madrugada, ainda não havia regressado. Como ex-militante de esquerda, sabia que o desaparecimento era o destino de boa parte de seus companheiros, e não nutria nenhuma esperança de que um dia veria Ana e seu filho com vida.
Os primeiros três meses de solidão foram os mais difíceis.
Assistia todo dia aos filmes vespertinos da TV e a todas as novelas, num processo de autoflagelação.
O rosto de Ana, seus cabelos longos e sedosos... O bumbum perfeito, com a tatuagem que tantos problemas lhe trouxera... As imagens de seu amor estavam presentes em cada canto do apartamento pobre. No armário de latão da cozinha, na mesa barata de fórmica... Até na garrafa usada de uísque, cheia de água na geladeira. Momentos assim, só entendem, os que viveram um grande amor, ou os que sabem que é precisar encher lingüiça no capítulo de um web-novela que está quase acabando.
Quanto a Ana, convicta de que era culpada pela morte do filho e de que não poderia encarar B, preferiu abandonar a cidade e tentar, com o que restara de sua fibra, começar uma vida nova.
- Minha punição será jamais ver de novo o seu belo rosto, meu amado... Disse Ana, tirando da carteira e jogando pela janela do ônibus leito a foto 3X4 do Camarada B.
Ela não poderia imaginar, ou talvez não quisesse. Mas numa das muitas voltas que este mundo dá, Ana e seu homem voltariam a se encontrar. E em condições capazes de surpreender até o seu coração calejado.
O que vem por aí? Você vai conferir no próximo capítulo?