
Ana acordou com febre, em num quarto modesto, deitada numa cama com lençóis muito brancos e limpos. Percebeu logo que sua barriga desaparecera.
- Meu bebê! Gritou.
Atraídos pela voz, os dois homens que a socorreram entraram no quarto.
- Basílio Stalin! Nikita Silva! Camaradas! Que bom revê-los! Ana vertia lágrimas de alegria.
- Por um momento pensei que eu e meu bebê seríamos liquidados pelo inimigo!
- Ana... Interrompeu Basílio
- Temos uma boa e uma má notícia.
- Ok... Primeiro a boa? Perguntou a guerrilheira, vacilante.
- Bem, você não terá que acordar de madrugada para amamentar...
- Meu filho!
Berrou, desesperada.
- O que aconteceu com ele?
- É a má notícia... Morreu no parto. Apesar de nossos esforços, nada pudemos fazer para evitar que ele se fosse...
- Nãããão!!!!
Ana Che foi tomada pelo mais absoluto desespero. Além da perda da criança, sentia uma enorme culpa pela estupidez de seu último ato. Sabia que se estivesse em casa, ao lado de Camarada B, nada disto teria acontecido. Nikita Silva tentou acalmá-la.
- Pense positivo, camarada. A revolução precisa de você. Sua bravura ao salvar Camarada B é uma fonte de inspiração para todos nós militantes. O ato está registrado em pinturas que decoram todos os aparelhos e fazendas de treinamento.
- Pinturas? Pintaram-me pelada?
Nikita sorriu amarelo.
- Não foi bravura...
Completou Ana.
- Era só amor! Agora saiam... Deixem-me sozinha.
Aquela noite a mulher não conseguiu pregar os olhos. Sua vida perdera o sentido e nada, nem seus mais nobres sentimentos revolucionários, trariam de volta seu bebê e a vida feliz que se esboçara na união com Camarada B.
Na madrugada, enquanto todos dormiam, Ana levantou-se, vestiu-se e desapareceu na rua escura para nunca mais ser vista por seus companheiros.
Em Nova York, em 1979, os homens corpulentos levaram embora Angelita e Miguel. Passados alguns minutos, voltaram à presença de Luciana.
- Não acabaram rapazes. Temos que encontrar este garoto.
- Mas... Uma criança? Em Nova York? Perguntou um deles.
- Não é uma missão assim tão difícil.
Disse a mulher
- Se você fosse uma criança, em que lugar de Manhattan procuraria abrigo?
- Central Park!
Os capangas responderam isto quase em uníssono e partiram em direção ao enorme parque.
Sentado num banco, vendo o vai e vem dos homens de negócio, gente praticando exercícios físicos ou aposentados matando o tempo, Tobias começou a chorar. Sentia que sua vida era um enorme engano e que talvez, fosse melhor se deixar abater.
Carmem Miranda, ao seu lado, tentava consolá-lo.
- Você foi um herói. Eles queriam matá-lo para tirar seus órgãos.
- E o que fariam com órgãos humanos? Perguntou o menino.
- Venderiam. Eles seriam transplantados em outras pessoas que estivessem precisando e que tivessem dinheiro para pagar.
- Então eu devia ter ido com os bandidos. Murmurou o pequeno órfão.
- Pelo menos meu coraçãozinho iria bater de alegria, no peito de um menino com papai e mamãe.
Pombas voavam ao fundo. O sol sumia no horizonte e a noite começava a tingir de negro a grama verde do parque. Um bêbado vomitava no banco do lado, só para este momento da história não ficar tão comovente. E de repente Tobias ouve, a princípio bem longe e depois se aproximando, alguém chamado o seu nome.
- Tobias! Tobias!
O menino viu de onde vinha o grito, eram dois homens corpulentos, vestindo ternos escuros. Sem forças para lutar contra seu triste destino, Tobias caminhou em direção à dupla, com os passos lentos de quem se entrega à morte.

Então Ana não era a mãe de Tobias? Será que enganamos você o tempo todo?