O Pequeno Órfão
  
 
Ana foge
 
 
Capítulo XVII

 

 

O soldado que prendeu Ana Che naquela fatídica madrugada em 1970 não estava nem um pouco confortável em submeter uma grávida, em final de gravidez, a uma seção de tortura. Ele parecia estar prevendo o que aconteceria em seguida. Ao entrar no porão abafado e inalar o cheiro de sangue e mofo, a mulher começou a sentir contrações.

- Meu São Fidel... Está nascendo! Gritou Ana, sentando-se no chão sujo.

- Ai, meu saco... Era só o que me faltava... Suspirou o policial

- Dona, eu não levo o menor jeito com essas coisas?

- Um parto é coisas simples. Disse a guerrilheira, suando frio.

- Você fica dizendo: "Força! Força!", eu empurro, depois você pega aquela pequena criaturinha coberta de uma gosma cor de sangue e catarro e corta o umbi...

Antes de Ana Che completar a frase o soldado, enojado, simplesmente desmaiou. Mesmo sentindo muitas dores, ela ainda conseguiu pegar o molho de chaves no cinto do policial e fugir pelos fundos da delegacia. Já na rua, agarrou-se, cambaleante, um telefone público.

- P-preciso falar com o B... Murmurou Ana. Mas ela não conseguiu concluir a ligação. Caiu no passeio público, sem sentidos, para ser recolhida segundos depois por dois homens que a observavam do outro lado da rua.

Em Nova York, em 1979, Angelita e Miguel temiam a ira de seus contratantes.

- Como vamos aparecer lá sem o menino? Se ao menos tivéssemos vendido o pestinha para os franceses ou os israelenses, que nos conhecem há anos... Mas seria o primeiro negócio com este novo grupo internacional de traficantes de órgãos! A voz de Miguel estava embargada pelo medo.

- Não dá também para voltar ao Brasil de mãos abanando. Vamos nos encontrar no local combinado para a entrega, e explicar a situação. Talvez eles nos ajudem a encontrar Tobias.

Duas horas mais tarde, o casal de criminosos estava no hall de um luxuoso hotel próximo ao Radio City Hall.

- Senhorita Luciana a aguarda na suíte presidencial! (Miss Luciana awaits her in the presidential suite!) Disse, em inglês, o recepcionista.

- Luciana? Estranhou Angelita.

- Bem, eles devem ter enviado uma brasileira, o que facilitará o diálogo... Deduziu Miguel.

O homem estava certo. Luciana, que se apresentou como a representante do grupo internacional de traficantes de órgãos, era uma brasileira muito bonita, na faixa dos 30 anos, com porte elegante e um olhar duro e frio. De trás de uma mesa espaçosa, na sala da luxuosa suíte, ela se dirigiu à dupla de raptores.

- E então? Onde está o menino?

- Bem...

Respondeu Angelita

- Aconteceu um acidente a caminho daqui e...

- Vocês não vão me dizer que o perderam, vão? Esta é uma velha desculpa e não aceitamos falsas justificativas para o fracasso...

- M-mas... Foi o que aconteceu! Ele fugiu do táxi, aqui em Nova York!

Miguel estava em pânico.

- Veja! Aqui está a passagem da criança, uma fotografia nossa com o menino... Eu posso provar que o raptamos e chegamos com ele até aqui!

Sem dizer uma palavra e nem encarar a dupla criminosa, Luciana apertou um botão no telefone. Logo, dois homens corpulentos, vestindo ternos sóbrios, entraram no ambiente.

- Levem-nos, rapazes. Vocês já sabem o que fazer com eles...

 

 

 

 

O que acontecerá com Angelita e Miguel? E com a Ana Che? E cadê o Tobias? E o Doutor William que não faz porcaria nenhuma para salvá-lo? Cadê a irmã Piedade? O Camarada B?

 

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XVII
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