O Pequeno Órfão
  

O vôo de Tobias

 

 

Capítulo XVI

 

 

O avião já se aproximava do aeroporto JFK. Angelita e Miguel dormiam e Tobias, excitado com a viagem e ao mesmo tempo preocupado com sua saúde, não conseguia pregar o olho.

- Eles não são o que parecem, Tobias... - disse o fantasma de uma mulher, que estava parado no corredor a menos de um metro.

- Você não existe. Deixe-me em paz! - respondeu o garoto, tampando os ouvidos com as mãozinhas.

- Eles raptaram você. E querem lhe fazer mal...

- Você não é real. Olha só! Essas roupas de lantejoulas, estas frutas ridículas em cima da cabeça...

- Meu nome é Carmem Miranda, e fui uma cantora que popularizou o Brasil no mundo!

- Tá bom... - retrucou o garoto - E eu sou o Superman. Vai, me deixa em paz...

Tobias fechou os olhos, para ver se afastava aquela imagem de Sua mente.

Neste momento Miguel acordou e foi em direção ao banheiro. Ao levantar-se, sua carteira caiu no chão, espalhando documentos e alguns dólares.

- Papai, sua carteira! - alertou Tobias. Mas Miguel já havia se afastado e a voz do garoto foi abafada pelo som das turbinas.

Feliz em poder ser útil, o garoto agachou-se e pôs-se a recolher os papéis. Foi quando se deparou com uma coisa muito estranha. Miguel tinha nada menos que três documentos de identidade, cada uma com um nome diferente.

- Não lhe disse? - Carmem Miranda tinha no rosto uma expressão grave, que em nada combinava com suas bananas.

- Não quer dizer nada... - tentou minimizar o menino - Pode ser que ele tenha dois irmãos, e que eles sejam trigêmeos.

Tobias recolheu os papéis antes que Miguel voltasse. Ainda queria acreditar que não havia nada errado, que seus novos pais o amavam e estavam cuidando dele, mas uma mistura de medo e desconfiança fez seu coraçãozinho infantil bater mais forte.

- Papai... Sua carteira caiu!

- Você viu as coisas que estão dentro dela? Perguntou Miguel com um semblante preocupado que apenas fez aumentar a sua dúvida.

- Não, papai... Mentiu Tobias - Eu não mexeria em seus pertences pessoais...

- Bom garoto!

Disse o bandido, acariciando a cabeça do menino.

- Agora tome estes comprimidos, eles vão ajudar você a descansar antes de chegarmos ao hospital...

Miguel deu a Tobias duas cápsulas e um copo plástico com água. O garoto fingiu tomar os comprimidos, mas cuspiu-os e guardou-os discretamente no bolso. Quando descerem em Nova York, o pequeno órfão fingiu estar dormindo. Miguel tomou-o nos braços e passou pela alfândega com Angelita, respondendo em inglês às perguntas do fiscal. Já no táxi amarelo, rumo a Manhattan, ouviu quando a sádica criminosa dirigiu-se ao companheiro.

- Dorme como um anjo... É uma pena...

Disse Miguel, com um suspiro.

- Até estava me apegando ao menino. Tão carente...

- Carente estou eu. Preciso urgentemente de um carro novo e diamantes! Não vejo a hora de entregarmos logo a mercadoria e pegarmos o dinheiro! - Você acha que vão pagar o combinado? Perguntou o homem.

- Claro! Um menino órfão, sem nenhum parente para vir atrás xeretar, é garantia de um abate sem dores de cabeça.

Aquele diálogo teve em Tobias o efeito de um choque elétrico. Seu corpo tremia, sua boca secou e sentia-se dentro de um pesadelo. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto e, numa fração de segundos, aproveitando-se do fato de que o táxi parara num congestionamento, abriu a porta e correu desesperado pelas ruas de Nova York. Miguel tentou alcançá-lo, mas o menino misturou-se à multidão e correu, correu, correu... Sem olhar para trás.

Tobias chegou ao Central Park já fora do alcance de seu carrasco e só parou para descansar quando se viu completamente sozinho, protegido por arbustos e árvores. O pequeno órfão estava perdido na Big Apple, sem falar uma única palavra em inglês e sem a menor noção de como voltar para casa.

 

 

Tadinho! E agora? Não sabe o que vai acontecer com ele?

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XVI
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