O Pequeno Órfão
  
 
 

 

O reencontro

 

Capítulo XV

 

A fumaça e o cheiro de morte sufocavam Ana Che quando o vulto armado surgiu do nada. Suas pernas fraquejaram de emoção quando ela reconheceu seu anjo salvador.

- Camarada B!

- Sim, meu amor...

O ex-guerrilheiro abraçou emocionadamente a mulher.

- Porque, Ana? Por que não me contou que estava esperando um filho meu?

Ana desvencilhou-se dos braços de B, subitamente lembrando-se da dor e da decepção que atormentava sua alma nos últimos meses.

- Você traiu nossa causa, B. Como soube que eu estava grávida?

- João Lenin me contou, mas recusou-se a revelar seu paradeiro. Ele havia instruído alguns companheiros a me avisar, entretanto, caso fosse capturado pela polícia ou pelo exército. Temia pela sua segurança e estava certo! Foi por muito pouco, amor...

Camarada B voltou a abraçar Ana.

- "Devo estar muito fragilizada pela gravidez". Pensou a subversiva.

- "Começo a me perguntar se vale à pena tanto sacrifício, ainda mais agora que vou ser mãe".

Como se estivesse lendo seu pensamento, Camarada B fez um apelo cheio de emoção.

- Larga essa merda, Ana. Vamos recomeçar a vida. Tem muitas outras maneiras menos arriscadas de lutar por uma sociedade melhor.

- Sugira uma, então...

- Podemos plantar tomates sem agrotóxicos; iniciar uma campanha pela preservação das baleias; fazer um sopão para os pobres; nunca mais peidar no elevador; fazer cinema nacional sem roubar a Embrafilme; dar dinheiro trocado ao cobrador do ônibus...

- Está bem, está bem... Você me convenceu! Disse Ana, aconchegando-se nos braços do seu amado.

- Vamos para casa!

Em dois dias, Ana e Camarada B encontraram um pequeno apartamento no centro da cidade. Ele estava trabalhando no escritório de uma fábrica de sapatos e preparando-se para o vestibular. Em uma semana nasceria o filho do casal e a expectativa de Ana era dedicar-se integralmente à criança no seu primeiro ano de vida.

Tudo parecia bem, mas no fundo de sua alma Ana sentia um imenso vazio.

- "É incrível que eu tenha me dedicado dois anos à guerrilha e não tenha conseguido deixar nenhuma marca. O Brasil nunca conhecerá meus esforços. Não é justo!".

Ana pensava sobre estas coisas, sentada num banco da pracinha próxima de sua casa. Foi quando reconheceu a imponente figura de Duque de Caxias numa estátua, em tamanho natural, a poucos metros de onde estava.

- "Sim! Por que não? Posso pintar de cor-de-rosa a bunda do cavalo de Caxias, que é o patrono do Exército. Seria uma boa maneira de me despedir da guerrilha e, ao mesmo tempo, imprimir uma marca bem visível de meu trabalho..."

Ana sabia que seu companheiro não entenderia este seu anseio.

- "Vai ser meu último ato como a guerrilheira Ana Che. A partir de amanhã serei simplesmente uma dona-de-casa".

Naquela noite, Camarada B e Ana deitaram-se cedo. Ali, com sua amada, a poucos dias de viver a emoção da paternidade, o jovem percebeu que nunca antes fora tão feliz.

Às duas horas da madrugada Ana ainda não pregara o olho. A cidade dormia em silêncio quando a guerrilheira deixou a cama, despedindo-se do marido com um beijo na testa. Ela pegou a lata de tinta e o pincel que escondera na dispensa e saiu furtivamente.

Quando B acordou, na manhã seguinte, não encontrou a mulher. E nunca mais encontraria.

 

 

 

Bom, aí você já sabe o que aconteceu, não é?

E o Tobias? Onde anda?

 

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XV
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