


Ana é presa
Capítulo XIV
Ana Che, a destemida guerrilheira, soube naquele momento que estava perdida e entregou-se resignada aos seus algozes. Ela não iria colocar em risco sua gravidez reagindo à prisão. Aliás, não havia outra opção; uma coisa é uma bela mulher nua com uma metralhadora. Outra é uma grávida, desarmada, com um vestido de chita rasgado na bunda. Ela já soube o que a esperava quando Freitas, friamente, executou seu Antero dentro da própria casa do velho comunista.
- Este é o seu pagamento por proteger uma matadora de policiais! Disse, chutando o corpo morto.
O grupo de policiais dividiu-se em dois carros. Freitas, Ana Che e dois soldados seguiam no segundo veículo. A moça, algemada, estava isolada na parte traseira do carro, escoltada por um policial. No banco da frente, o delegado comemorava o feito com um soldado que fazia às vezes de motorista.
- Essa mulherzinha vai se arrepender amargamente por...
Ele não teve tempo de completar a frase. O carro que seguia à frente simplesmente explodiu, com um som espetacular, enchendo de fogo e fumaça a estreita estradinha de terra. O motorista do segundo carro mal teve tempo de brecar e evitar a colisão. No meio da balburdia, dois tiros rápidos e certeiros tiraram de ação o delegado Freitas e seu colega. O soldado que acompanhava Ana no compartimento traseiro abriu a porta. Em pânico, puxou a mulher para fora.
O denso matagal na lateral da estrada e a fumaça da explosão impediam que ele pudesse enxergar os agressores. No meio da estrada, entretanto, foi um alvo fácil para o exímio atirador que, escondido entre as folhagens, disparou um único tiro mortal na testa do policial. Logo, tudo foi silêncio. Ana com sua protuberante barriga viu sua sorte mudar em segundos. Ela estava livre novamente! Atônita, alisou o ventre e respirou fundo. De repente, um vulto armado surgiu no meio da fumaça, tomando forma diante de seus olhos.
De volta a 1979, Miguel, Angelita e Tobias embarcavam num vôo noturno para Nova York. Por causa do horário, não chamou a atenção o fato de que o menino, identificado como filho do casal por documentos falsos, estivesse dormindo nos braços do falso pai.
No orfanato, Piedade estava desesperada.
- Ninguém atende ao telefone que nos deram, e o endereço na ficha preenchida por Miguel e Angelita não existe!
- Não se apavore, irmã.
Respondeu Consolação.
- Eles podem ter errado a ficha. O mais provável é que estejam se divertindo em algum parque. Quem se interessaria em raptar um órfão pobre de oito anos?
- Que Deus a ouça, Consolação. Mas é melhor chamar a polícia! Disse Piedade, já agarrando o telefone.
No avião, Tobias acordou assustado.
- O que houve? Onde estou? Minha cabeça está rodando...
- Você está dodói, Tobias. Uma doença muito grave!
Respondeu a sádica Angelita, tentando manter um semblante sério.
- É tão grave que você passou o dia inteiro desmaiado!
- Isto... Isto é um avião! Constatou, deslumbrado, o pobre menino.
- Sim, querido. Sua doença não tem tratamento no Brasil e Irmã Piedade nos permitiu levá-lo aos Estados Unidos em busca da cura. Mentiu Miguel.
Numa cadeira vazia, ao lado, o espírito de Jim Morrison balançava negativamente a cabeça, tentando mostrar ao menino que ele estava entrando numa fria.
- Você não existe, Jim!
Disse Tobias, baixinho.
- Agora sei que vejo fantasmas porque sou uma criança doente. Mas papai e mamãe vão cuidar de mim...
E fechou os olhinhos inocentes, caindo no sono outra vez.
Bom, aí você já sabe o que aconteceu, não é?
E o Tobias? Onde anda?