O Pequeno Órfão
  
 

 

 

Tobias e Ana em perigo

 

Capítulo XIII

 

 

Angelita e Miguel levaram Tobias até uma sorveteria, no centro da cidade.

- Eu busco os sorvetes! Disse o homem, deixando sua comparsa com a criança.

Tobias nunca tinha visto um sundae tão grande e apetitoso, e não poderia imaginar que Miguel, furtivamente, havia despejado uma dose cavalar de sonífero na guloseima.

- Oh, papai! Este é o dia mais feliz da minha vida!

- Também estamos muito felizes, Tobias. Você não imagina o quanto você tem valor para nós... Respondeu a sádica Angelita, com sua usual ironia.

O garoto devorou o sorvete com a urgência esperada de um órfão carente, para quem situações como aquelas eram raras.

Segundos depois, começou a sentir os efeitos da droga.

- Papai... Mamãe... Está tudo escurecendo!

- Ai, meu Deus! Gritou Angelita, com genuína preocupação.

- Será algum problema nas córneas?

- Não seja estúpida! Cochichou Miguel

- É apenas efeito do sonífero!

- Estou muito cansado... Suspirou Tobias.

- Encoste-se em meu peito, filhinho. Durma... Durma... Disse Miguel.

A criança agasalhou-se nos braços do bandido.

- Estou tão feliz... Balbuciou Tobias. E entregou-se ao sono com um sorriso no rostinho inocente.

De volta a 1970, a batida policial surpreendeu Ana Che e Seu Antero. Mas ambos haviam considerado várias vezes a possibilidade de que um dia, seriam descobertos, e conseguiram manter-se equilibrados. Com sua enorme barriga de final de gestação, a silhueta da guerrilheira em nada lembrava a mulher que o Delegado Freitas havia visto.

De fato, o policial sequer havia se dado conta de que nove meses de buscas infrutíferas haviam transcorrido. Parecia muito menos tempo. Por esta razão, e pelo fato de que uma guerrilheira jamais permitiria a continuidade de uma gravidez, especialmente se estivesse fugindo da polícia, o delegado não percebeu que estava diante da famigerada Ana Che.

- Procuro a subversiva de nome desconhecido que utiliza o pseudônimo de Ana Che.

Disse Freitas

- O elemento conhecido como João Lênin denunciou o senhor, seu Antero. Se não colaborar, estará envolvido em graves problemas.

- Ah, esses jovens... Respondeu o velho, balançando a cabeça.

- O João inventou essa história como vingança, só porque abandonei minhas velhas idéias comunistas e me neguei a apoiar seu grupo guerrilheiro.

Freitas acariciou a barriga de Ana, como forma de certificar-se de que tratava-se de uma gravidez real.

- Quem é você?

- Maricota, mulher do seu Antero... Respondeu, carregando no sotaque caipira e com um olhar tímido.

- Sabe como é...

Comentou o dono da casa.

- Pra cavalo velho, o remédio é capim novo...

Freitas sentia que havia algo de estranho no ar. Mas não sabia como abordar a dupla da forma mais produtiva. Antero tentou-se mostrar amigável.

- Maricota, minha querida. Passa um cafezinho para os policiais...

Ana levantou-se com dificuldade. O vestido de chita barata, apertado por causa da gravidez avançada, acentuava sua aparência caipira. Ela pegou na cristaleira a bandeja com as xícaras e encaminhou-se para a cozinha. Por causa do nervosismo, entretanto, deixou a bandeja cair no chão, provocando um estampido alto.

- Eu ajudo a senhora. Disse o delegado.

- Não...

Apressou-se Ana.

- Eu mesma pego, obrigada.

Ao agachar-se, entretanto, o tecido frágil de seu vestido cedeu, rasgando das costas até as coxas. Por uma ironia do destino, uma parte de sua tatuagem, que ultrapassava a altura da calcinha, revelou-se aos olhos de Freitas.

- Acho que nossa busca acabou, colegas... Disse o delegado, sorrindo de forma maliciosa.

- É como diz o ditado... Comentou seu Antero, com a experiência dos velhos

- Quem muito abaixa mostra a bunda!

 

 

 

Ana vai morrer?

Tobias vai morrer?

Seu Antero vai morrer?

Será que ninguém mais morre nessa porcaria?

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XIII
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