O Pequeno Órfão
  
 
Ana reencontra Camarada B
 
Capítulo XI

 

 

Vendo que Ana Che estava para ser desmascarada, Irmã Piedade interveio.

- Não conhece a Irmã Fátima, Consolação? Ela está aqui desde ontem, hospedada no meu quarto. Veio, participar do Workshop Confecção de Terços com Materiais Alternativos...

- Ah... Bem-vinda irmã...

Disse Consolação, com um sorriso malicioso.

- Creio que, nestas condições, a senhora não estranhará se lhe pedir para ver suas nádegas!

- Claro que não.

Respondeu Ana, com frieza.

- Mas tenho uma maneira menos constrangedora de comprovar minha identidade. Posso apresentar-lhe meus documentos, que estão no quarto.

- Tudo bem, vá buscá-los. Mas não demore.

Ana caminhou lentamente até o quarto. Trancou cuidadosamente a porta e pulou pela janela, atingindo a rua. Os transeuntes estranharam a performance atlética daquela freira, que corria como uma desvairada. Mas a cena era, sem dúvida, muito menos chocante do que se Ana estivesse nua...

- "Devo minha vida a Irmã Piedade!". Pensou, enquanto desaparecia na multidão agitada do centro da cidade.

No convento, Consolação, percebendo que a porta estava trancada, rodeou o prédio e confirmou sua suspeita: a falsa freira havia fugido.

- Isto não vai ficar assim, Piedade! Vociferou. Vou denunciá-la ao Bispo!

- Estou tão surpresa quanto você! Ela me enganou direitinho! Respondeu a religiosa.

Consolação percebeu que não teria provas contra a colega, e Engoliu seco.

- Está bem. Desta vez passa... Disse, antes de sair pisando duro.

E Piedade foi correndo para a capela, desculpar-se a Deus por tantas mentiras.

Para Camarada B, a experiência havia sido traumática. Ele não sabia se incomodava mais a tortura ou a visão dos corpos dos policiais mortos.

- Não estou pronto para a luta armada... Murmurou, enquanto caminhava até um ponto específico do maior parque da cidade. Ali era o local secreto de encontro de seu grupo guerrilheiro, quando seus membros estavam expostos a situações de risco.

- "Para mim chega. Vou convencer Ana a deixar tudo e se mudar comigo para outro estado. Podemos recomeçar as nossas vidas sem violência" Pensou.

Meia hora depois, Ana Che, ainda vestida de freira, chegou ao local sob uma árvore, o casal se beijou com sofreguidão.

- Ah, meu amor! Meus esforços não foram em vão! Você está livre! Disse Ana Che.

Camarada B contraiu-se.

- Seus esforços? Você foi a responsável pela chacina na delegacia?

- Sim, meu querido! Eram uns porcos fascistas! E de que outra maneira poderia libertá-lo?

O guerrilheiro sentiu-se pequeno diante de Ana. Ele jamais teria tamanha coragem! Sentiu-se também culpado por ser o pivô daquelas mortes, e por ter colocado em risco a vida de sua amada. Mas ainda queria acreditar numa vida diferente com Ana.

- Meu amor... Eu não agüento mais a clandestinidade! Quero poder abrir um crediário, comprar o consórcio de um fusca, arranjar um emprego, voltar a estudar... Vem comigo, vamos recomeçar nossas vidas!

Aquelas palavras chocaram Ana. Será que Camarada B era apenas mais um pequeno burguês, fraco e acomodado? Não. Provavelmente ele estava ainda sofrendo as seqüelas das horas passadas no porão do temível delegado Freitas.

- Recuso-me a ouvi-lo dizendo isso, camarada.

Cortou Ana, com voz grave.

- Precisamos nos separar agora, como manda o manual tático. Mas espero que você recupere a razão. Estarei aqui, sob esta mesma árvore, no mesmo horário, daqui a exatamente uma semana. Se você ainda me quiser, encontre-me e continuaremos nossa luta pela libertação nacional.

- Mas Ana, eu...

- Não diga nada, B... Apenas me beije.

- A que ponto este mundo chegou! - Vociferou uma velhinha que passava no local, ao ver o cinematográfico beijo de despedida da falsa freira com o guerrilheiro arrependido.

 

 

 

 

Será que o amor de Ana e B já deu o que tinha que dar?

 

 

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo XI
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