O massacre da subversiva nua
Capítulo VIII
O Dr. William Mascarenhas deixou a sala de Irmã Piedade decepcionado, mas sentiu uma enorme pena daquele pobre menino abandonado ainda bebê no orfanato.
- Tudo bem... Ele não vê fantasmas e me enrolou direitinho. Mas quanta dor se esconde neste mundo de fantasia que criou... Filosofou, em voz baixa, enquanto voltava ao dormitório para ver o menino.
Tobias continuava sentado e cabisbaixo.
- O senhor não acreditou em mim, não é?
- Claro que acreditei. Mentiu William, fingindo um sorriso.
- Quero saber mais sobre estes fantasmas. Você está disposto a me contar?
Tobias concordou com a cabeça.
- Então volto para vê-lo amanhã. Pode ser?
- Não creio que haja a necessidade... Cortou a sempre fria Irmã Consolação, que entrou furtivamente no aposento.
- Mas... O tratamento do menino... Titubeou William.
- A partir de amanhã não nos caberá mais decidir.
Continuou a religiosa
- Tobias será adotado.
Os olhos do garoto brilharam de felicidade. Mas William sentiu que havia alguma coisa estranha no ar.
Muito antes destes fatos, cenas dramáticas se desenrolavam na delegacia onde estava preso o Camarada B. Você pode bem imaginar a surpresa dos seis policiais: naquele 1970 o Brasil vivia uma forte censura política e também de costumes. A visão de uma mulher alta, esguia, com um corpo maravilhoso, pele muito clara, e longos cabelos Loiros, empunhando uma metralhadora compacta de fabricação russa, não era lá o que se poderia considerar uma cena corriqueira.
Eles mal tiveram tempo de esboçar qualquer reação. Com duas rajadas, Ana matou os seis policiais. Um guarda, entretanto, e o próprio delegado Freitas estava no porão, encarregando-se de torturar o Camarada B.
Para sorte de Ana, as gargalhadas histéricas do companheiro, causadas por uma pena de galinha com a qual Freitas habilmente acariciava seu pé esquerdo, tampou a clareza do som.
- Que barulho foi esse?
Perguntou o delegado.
- Uma betoneira, talvez... Ou fogos de artifício... Respondeu o guarda.
- Suba e veja se está tudo certo.
O soldado não teve tempo de chegar ao pavimento superior. Foi surpreendido ainda na escada pelas balas certeiras de Ana Che.
O experiente Freitas jogou-se ao chão, sacando seu revólver e atirando na direção de Ana.
A guerrilheira percebeu que a munição de sua metralhadora havia acabado. Sem outra alternativa, bateu em retirada. Em outra situação, Freitas talvez conseguisse acertá-la. Mas o que viu ao atingir o andar térreo tirou completamente sua concentração.
Seus companheiros mortos, e uma bela mulher nua, já sem a metralhadora, correndo para fora da delegacia em direção ao terreno baldio, ao lado do prédio.
Temendo que a moça fosse apenas um chamariz, o delegado colocou furtivamente a cabeça para fora da porta. A rua estava calma. Freitas finalmente correu, após alguns segundos, rumo ao matagal. Mas era tarde demais. Tudo o que encontrou foram às roupas de Ana.
O fundo do terreno fazia divisa com a CACA - Casa de Apoio à Criança Abandonada, a mesma instituição onde meses depois Tobias seria deixado.
- “Ela não pode ter ido longe completamente nua...” Pensou Freitas.
- Aposto como a vaca está escondida no orfanato...
O delegado sabia que não seria fácil reconhecer Ana Che. Afinal, não havia tido a chance de ver o rosto da moça. Mas contava com uma pista: a foice e o martelo que a guerrilheira, numa das temporadas de treinamento, mandou tatuar em sua bunda perfeita.
- Você não vai me escapar, comunista maldita... Vociferou, enquanto se dirigia à CACA.
Freitas encontrará a bunda assassina?
Se o pequeno órfão já vai ser adotado, por que a web-novela tem esse nome?