O Pequeno Órfão
  
 
Nas mãos do carrasco
 
Capítulo VII

 

 

 

Jim Morrison não era o único fantasma que Tobias costumava ver. Embora a criança não conhecesse grande parte delas, muitas personalidades da política, música e cinema costumavam passear pelos corredores do orfanato. Sabe-se lá porque.

O menino era especialmente simpático a um quarentão gordo e bonachão, que usava roupas engraçadas cheias de lantejoulas e que os demais fantasmas costumavam chamar de Elvis.

Mas o que realmente perturbava Tobias era o fato de que seus pais nunca haviam tentado fazer contato com ele. Em sua cabecinha infantil, ele preferia imaginar que seus pais morreram, jamais que tivesse sido abandonado. E de que valia ter um dom tão especial quanto o seu, se não podia usá-lo para ver as pessoas mortas que mais desejava conhecer?

- Por que, Jim? Por que meus pais não aparecem?

Perguntou, com um fio de lágrima escorrendo pela bochecha.

- People are strange... Respondeu o roqueiro.

Em 1970, pendurado no pau-de-arara, Camarada B se preparava para receber com bravura a seção de tortura a que seria submetido. Durante o treinamento de guerrilha recebido em Cuba, o rapaz havia aprendido a dominar totalmente a dor. O segredo era focar uma causa maior: a libertação popular. Com a mente fixa neste nobre pensamento, basta imaginar os rostos felizes de pessoas, de diferentes raças e origens, num clima de justiça e igualdade.

Logo uma estranha dormência toma conta de todo o corpo e subitamente esvai-se a sensibilidade. Neste estágio, o eu revolucionário está totalmente diluído no conceito maior de bem comum.

- Mas... Espera aí... Cosquinha no pé, não! Pelo amor de Deus! Tudo, menos cosquinha no pé!

Numa simples troca de olhares, o terrível delegado Freitas sabia reconhecer intuitivamente as fraquezas de suas vítimas.

- Então, vermelhinho... Comece contando a que grupo você pertence.

- Movimento Revolucionário 24 de Setembro.

- Que porcaria de data é essa? Estranhou o carrasco.

- É o dia do meu aniversário!

- Freitas coçou o queixo saliente e continuou o interrogatório.

- Quantas pessoas atuam com você?

- Somos quatro, delegado...

- E onde fica o aparelho?

- Mesmo sabendo que não resistiria a uma seção de cosquinhas no pé, Camarada B pensou no belo rosto e no corpo perfeito de Ana Che. Rememorou cada segundo da única noite de amor do casal. Respirando fundo, gritou num fôlego.

- Jamais saberás! Nem que me mates!

Há poucos metros dali, Ana Che, sozinha, tentava bolar uma maneira de salvar o amado.

- "Uma única guerrilheira, como eu, não conseguiria sozinha invadir uma delegacia..."

Pensou. Mas logo um sorriso iluminou sua face.

- “Sim! Talvez eu possa usar o elemento surpresa. Entrar lá completamente nua e metralhá-los antes que se dê conta do que está acontecendo!”.

Ana entusiasmou-se com a idéia. Num terreno baldio ao lado da delegacia, livrou-se totalmente das roupas e montou sua metralhadora compacta de fabricação russa.

Como uma visão surrealista, mistura de anjo de beleza com demônio assassino, a brava Ana apareceu na porta da frente, arma em punho, diante de seis policiais perplexos. 

 

 

Uau! Uma gata nua metralhando policiais!

Que coisa mais trash, heim!

Será que a Ana sai dessa?

 

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo VII
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