

- "Incrível". Pensou William.
- "O garoto está, neste momento, vendo a alma de Jim Morrison"!
O médico ficou entretido alguns segundos ruminando seus próprios pensamentos. Sentiu uma ponta de inveja de Tobias.
- "Já pensou, poder ter algum contato com o além? Como gostaria de ouvir qualquer sinal!".
Neste momento, William ouviu, bem próxima, uma voz cantando:
- Camon baby, light my fire!
Um arrepio tomou conta de seu corpo! Ele estava ouvindo a voz do vocalista do The Doors! A voz de um homem morto! Virou-se bem devagar e ficou chocado ao descobrir que quem cantava a canção era uma das freiras do orfanato que carregava uma pilha de lençóis sujos rumo à lavanderia.
- Vocês conhecem The Doors?
Estranhou William.
- Claro!
Respondeu a freira, com um sorriso maroto.
- Um hippie abandonou seu filho aqui uma vez, e deixou com ele uma pilha de discos. O LP do The Doors veio junto. O Tobias ouve o dia inteiro!
William Mascarenhas lançou um olhar fulminante em direção a Tobias.
- "O pirralho estava gozando a minha cara!". Pensou.
- Não é o que o senhor está pensando... Eu explico!
Tentou justificar o menino, enquanto o médico saía, pisando duro, rumo à sala de Irmã Piedade.
A religiosa ouviu atentamente a narrativa do médico. E abriu um sorriso largo.
- O Tobias disse que vê o fantasma do tal roqueiro? Bem, doutor William...
- Este é um dos problemas do menino. Ele mente compulsivamente!
No dormitório, sentado em sua cama, Tobias estava cabisbaixo.
- Eu sabia que não deveria ter contado... Disse baixinho.
O homem sentado ao seu lado na cama alisou suavemente seus cabelos.
- Don't worry, baby... Disse Jim Morrison.
E embora não entendesse inglês, Tobias percebeu o sentido das palavras.
No aparelho dos subversivos, em 1970, João Lenin, um dos companheiros de Ana Che trazia péssimas notícias.
- Camarada B caiu!
Treinada para ser forte e dissimular suas emoções, a bela Ana sentiu uma vertigem. Instintivamente levou a mão ao ventre. Lembrou-se que não havia tomado qualquer cuidado para evitar uma possível gravidez, e estava em seus dias férteis.
À noite de amor havia sido intensa. Ana ainda acreditava num futuro com Camarada B e a notícia cortou seu coração como um punhal.
- "Imagino nós dois, caminhando livremente depois da grande revolução popular... Ao entardecer, lendo Karl Marx de voz alta na areia da praia... Fazendo amor ao som de hinos socialistas... Bebericando vodka depois de um dia de trabalho voluntário nos canaviais...".
Ela não iria abrir mão de seu futuro tão facilmente! Não a forte Ana!
- Companheiros...
Disse, em tom imperativo.
- Vamos resgatar o Camarada B!
- O que é isso, companheira?
Assustou-se João Lênin.
- Ele está nas garras do sanguinário delegado Freitas!
Ana Che balançou a cabeça com uma expressão de desânimo.
- A revolução exige toda a coragem possível, camarada. Inclusive a que nos falta. Eu vou sozinha!
E saiu, deixando para trás, incrédulo, seu companheiro de armas.
Ana Che conseguirá resgatar seu amor?
Tobias pedirá um autógrafo a Jim Morrison?