

- Desça do carro. Você vem comigo... Ordenou o policial.
Camarada B sabia que havia se metido numa enrascada das grossas. Meia hora depois estava frente a frente com o temível delegado Freitas, responsável pelo desaparecimento de doze subversivos, quatro ex-esposas e dois cachorros da vizinhança, que latiam muito à noite.
- Abaixo a repressão. Pela liberdade de expressão! Leu o delegado, com um sorriso cínico no canto da boca.
- Então... Você vai me dizer que mandou fazer estes panfletos para protestar contra a sua sogra?
- O senhor está estranhando porque não conhece a velha, doutor...
Respondeu Camarada B, com uma frieza adquirida graças a muito treinamento de guerrilha, dois conhaques e cinco comprimidos de calmante.
- E como os transeuntes associariam este panfleto anônimo à sua sogra? Questionou o inquisidor.
- Transeuntes? Panfletos?
Retrucou o guerrilheiro.
- Imagine, doutor. Eu pretendo usar estes impressos como papel de parede na minha sala e quarto de hóspedes. A velha chega Quarta-feira lá em casa.
- Soldado...
Chamou o delegado, alimentando por alguns segundos em Camarada B, a esperança de que seria libertado.
- Pois não, senhor.
- Leve o engraçadinho pro pau-de-arara! Ordenou, apontando a porta que dá acesso ao porão.
De volta a 1978, na CACA, o psiquiatra William Mascarenhas continua sua conversa com Tobias, o Pequeno Órfão que garante ver fantasmas.
- Meu filho, é impossível ver pessoas mortas. A não ser no velório, no necrotério ou naqueles filmes velhos que a televisão reprisa de madrugada.
- É sempre essa a reação das pessoas. Nenhum garoto do orfanato acredita em mim... Disse o garotinho, enfiando a cabeça entre as pernas.
- Com que freqüência você vê estes espíritos?
- O tempo todo. Agora mesmo estou vendo um moço que aparece por aqui de vez em quando. Ele diz que é americano, se chama Jim Morrison, e está batendo papo com dois índios na cama do lado.
William sentiu um arrepio na espinha. Um garoto de oito anos, criado num orfanato de freiras, talvez soubesse cantar as obras completas de Padre Zezinho, mas não conheceria pelo nome o ex-vocalista do The Doors.
- Me descreva este tal de Jim... Pediu o médico, com a voz trêmula.
- HUmm... Cabelos longos e rebeldes caindo até os ombros... Calça de couro apertada... Colar de contas... Óculos escuros...
O médico, impressionado, percebeu que estava diante de um fenômeno.
Será que Tobias vê mesmo fantasmas ou é tudo fantasia de sua mente conturbada de criança carente?