O Pequeno Órfão
  
 
Uma curta história de amor
  
Capítulo IV

 

 

Ana "Che" havia engravidado por acidente, durante um longo período escondido num “aparelho", como eram chamadas as instalações secretas dos guerrilheiros.

Linda, com cabelo Loiros muito liso até a cintura que era bem torneada, Ana havia sido garota da capa da revista "Levante Operário", publicação clandestina que fazia sucesso no mundo subversivo.

Outros três companheiros do movimento dividiam o mesmo apartamento apertado, inclusive um belo rapaz, de cabelos longos, cujo codinome, era Camarada B.

Naquele dia, Ana e B estavam sozinhos.

- Você ficou linda de biquíni segurando aquela foice e aquele martelo na capa da revista...

- Obrigada... Usei minha sensualidade como instrumento de mobilização de massas, revertendo em favor da causa popular o modelo capitalista de exploração do corpo da mulher...

Justificou-se, sem graça.

- Claro, camarada...

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas fitando um ao outro. Com a boca seca, mãos molhadas e coração batendo em ritmo acelerado, Camarada B revelou sua paixão.

- Ana... Sabe... Desde a primeira vez que a vi...

- Não diga nada, companheiro!

Interrompeu a moça.

- Me chama de Sierra Maestra e me ocupa toda!

As mãos nervosas dos dois revolucionários entregaram-se de forma ávida à tarefa de livrar-se das calças jeans e camisetas. Amaram-se com uma volúpia próxima ao desespero, manifestação física da tensão interior causada pela vida na clandestinidade.

Ana não poderia imaginar que aqueles momentos mágicos não se repetiriam.

No dia seguinte, Camarada B estava escalado para panfletar no centro da cidade com mensagens contra a ditadura. Saiu sozinho em um fusca roubado, carregado com os impressos, quando se deparou com uma blitz comum de trânsito.

- Documentos pessoais e do veículo!

Camarada B entregou os papéis falsos ao policial, que analisou-os superficialmente e os devolveu.

- Tudo bem pode...

Antes de concluir a frase, o guarda percebeu o grande volume de impressos no banco de trás.

- O que é isso?

- Nada demais... Respondeu B, controlando a respiração ofegante.

O homem estendeu o braço e pegou um dos panfletos.

- Abaixo a repressão. Pela liberdade de expressão! Leu, em voz alta.

- Mas que porcaria é essa?

- Humm... É um protesto contra a minha sogra! Disse B, sem muita convicção de que conseguiria sair daquela.

 

 

Camarada B convencerá o policial com esta história?

Onde está o Tobias?

Que porcaria é essa de ir para frente e para trás no tempo, num flash-back idiota de cinema europeu?

 

 
 
"O Pequeno Órfão"
Capítulo IV
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