A
confirmação
Capítulo
XXVIII
Alguns
dias que se passaram desde a morte de Ambrósio. Adenaíra vinha se recuperando da
infecção hospitalar. Bruno a levara para sua casa e a convivência era amigável.
A moça se esforçava para transformar aquele apartamento de solteiro em um lar; e
o rapaz gostava de sua companhia. Pena que não conseguia esquecer Jeitosinha e
ainda sentia um, digamos, "vazio por dentro", se é que você me
entende...
Como
era de se esperar, os exames periciais confirmaram que se tratava da letra de
Ambrósio no bilhete. Provaram também que as digitais eram mesmo de Arlindo.
Impotente diante da armadilha armada pela irmã e diante das péssimas condições
da carceragem, o rapaz simplesmente enlouqueceu.
Na
casa de Jeitosinha todos se esforçavam para retomar as rotinas de suas
vidas.
Adenaíra
escrevera contando da operação e de como estava feliz em sua nova condição.
Omitira, entretanto, que era hóspede de Bruno.
No
bordel de Madame Mary, Jeitosinha buscava superar a perda de seu amado nos
braços de Laura Crowford.
O treinamento da loira continuava. Na penumbra de seu escritório, a cafetina
continuava instruindo Jeitosinha sobre os mistérios do amor e do sexo, mas ainda
eram apenas aulas teóricas, o que já estava deixando nossa heroína
impaciente.
-
Às vezes sinto que a senhora, deliberadamente, está adiando minha estréia
profissional. Questionou, um dia Jeitosinha.
Pela
primeira vez, a sempre segura Madame Mary pareceu
incomodada.
-
Que bobagem, querida. Já lhe disse, tenho uma imagem a zelar. Tudo virá a seu
tempo.
Jeitosinha
vinha se abrindo cada vez mais com a patroa. Chegou a confessar o atentado com a
serra elétrica, o plano que incriminou Arlindo e o desejo de se vingar da mãe.
Madame Mary a tudo ouvia, sem emitir qualquer
opinião.
Naquela
tarde, entretanto, encontrou Jeitosinha mais fragilizada do que de
costume.
-
O que houve, criança? Perguntou a cafetina.
-
Não sei o que está havendo comigo, Madame Mary.
Disse
a loira, com a voz embargada.
-
Talvez seja a falta de Bruno ou o remorso por ter tirado a vida de meu pai. Mas
o fato é que estou fraquejando. Começo a achar que talvez mamãe não seja assim
tão culpada pelo meu destino. Talvez seja a maior das vítimas, preservando um
segredo por tantos anos apenas para poupar a todos da ira de
Ambrósio.
-
O que você quer dizer com isso? Perguntou Mary.
-
Quero dizer que estou cansada de ódio e sofrimento. Vou buscar minha felicidade.
E começarei procurando mamãe e dizendo que a
perdôo.
-
Não creio que você precise procurá-la. Disse Madame Mary, num tom de voz
bastante familiar.
A
mulher aproximou-se do fraco abajur que iluminava o escritório. Com lágrimas
banhando o rosto, retirou sua máscara.
-
Mamãe!? É você!? Não pode ser!
-
Claro que sou eu, querida. Você acha que com o salário de contínuo do seu pai
conseguiríamos criar sete filhos e ainda comprar pra você a coleção completa da
Barbie?
-
Então é por isso que o meu treinamento nunca terminou! Você não queria
prostituir a própria filha!
-
Sim... Este foi apenas um dos muitos sacrifícios que fiz por você. Fui eu quem
jogou fora os restos mortais de Ambrósio e limpei a bagunça da sala. O
telefonema e o bilhete falando da pescaria também foram invenções
minhas.
-
Então... Papai realmente havia morrido?
Espantou-se.
-
Sim! Só não me pergunte como ele voltou à vida. Talvez tenha sido um milagre dos
céus para poupá-la, Jeitosinha. Você já havia sofrido demais e aquele plano da
serra elétrica era simplesmente ridículo. Você deixou suas digitais espalhadas
pela casa inteira! O segundo crime foi muito mais requintado, e ainda puniu o
chantagista do Arlindo!
Jeitosinha
abraçou a mãe, emocionada (imagine uma música melosa, executada por um naipe de
violinos...).
Finalmente,
quase tudo parecia se encaixar. Era um novo tempo de recomeço. De repente,
Jeitosinha percebeu que o bordel nunca fora seu lugar. O que de fato a atraía
era o magnetismo de Madame Mary, que não era ninguém menos que Marilena. Não
fosse a saudade que sentia de Bruno, tudo estaria perfeito em sua
vida.
No
final daquela tarde, Jeitosinha se despediu das colegas de
bordel.
-
Vou tirar um tempo para mim. Preciso repensar minha vida. Talvez volte a esta
casa, como auxiliar de mamãe, não sei. O importante é que fiz muitos amigos
aqui.
Laura
Crowford
chorava copiosamente.
-
Está tudo acabado entre nós?
-
Sim, Laura. Não adianta. Bruno é o meu único amor. Preciso esquecê-lo antes de
poder recomeçar com outra pessoa.
Laura
pareceu entender. Tanto que deu a Jeitosinha um conselho bem
prático:
-
Se você o ama tanto, porque não tenta uma reaproximação? Tudo bem, ele pensa que
você é uma de nós, mas você, em contrapartida, flagrou-o nos braços da Kátia
Trovoada.
Kátia,
o traveco moreno que possuiu Bruno, espantou-se:
-
Aquele era o seu bofe? Ih, menina... Você está sofrendo a
toa.
-
Como assim? Surpreendeu-se Jeitosinha.
E
Kátia começou a narrar o diálogo que ela e Bruno tiveram antes do ato de
amor...
Não
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capítulo...