Quem
morreu?
Capítulo
XXVII
-
Eu não matei papai!
Arlindo
gritava com a convicção dos inocentes, mas a detetive Alessandra estava
impassível.
-
Você vai explicar isso ao tribunal. Temos evidências mais do que suficientes
para prendê-lo.
-
Quais? Quais são as evidências? Perguntou,
inconformado.
-
Seu pai amanheceu morto, e tudo indica que foi envenenado. Sua mãe percebeu logo
no começo da manhã e nos chamou. Enquanto você dormia, procuramos pistas pela
casa e encontramos no fundo de sua gaveta de cuecas o frasco de um veneno muito
eficaz.
-
Não pode ser!
Interrompeu
o encrencado Arlindo.
-
Alguém colocou isso lá para me incriminar!
Alessandra
sorriu, com sua frieza habitual.
-
Não adianta, Arlindo... É melhor confessar. Você não contava com isso, mas seu
pai, prevendo o seu trágico destino, escreveu uma
carta.
A
moça fez um sinal com os dedos e um dos assistentes entregou-lhe o pedaço de
papel. Alessandra prosseguiu.
-
Estava no bolso do pijama de Ambrósio. Veja o que
diz:
"Se
alguém encontrou esta carta, provavelmente já estarei morto. O fato é que
recobrei minha memória. Arlindo, meu filho mais velho, foi o responsável pela
primeira tentativa de assassinato. Ainda não sei o que farei, mas como ele pode
tentar de novo, deixo registrada esta denúncia. Arlindo nunca me perdoou por uma
grande surra que lhe dei em sua adolescência, e nunca me perdoou por gostar mais
de Jeitosinha. Percebendo que eu finalmente começava a me lembrar de tudo,
passou a me ameaçar. Tenho medo de procurar a Polícia. Aliás, como me tornei um
monstro, não faz tanta diferença estar vivo ou morto. Tudo o que desejo é que,
caso dê cabo de minha vida, o cruel Arlindo seja
punido".
Ambrósio
assina a carta.
-
É claro que ainda faremos um exame grafotécnico...
-
Não pode ser! Este bilhete é forjado! Você verá! Disse o primogênito de Ambrósio
e Marilena.
-
Há ainda uma terceira pista. Completou
Alessandra.
-
Existe este copo, encontrado ao lado da cama do seu pai, com resíduos do mesmo
veneno encontrado em seu quarto, dissolvido em suco de groselha. Nele, há
digitais de duas pessoas diferentes.
-
"Sim!". Pensou Arlindo.
-
"Agora eu entendo! Foi Jeitosinha! Ela me serviu uísque, ontem, neste mesmo
copo. Como ela usava luvas, só as marcas de meus dedos estão no
vidro!"
Em
pânico e tremendo de ódio, Arlindo apontou para a
irmã:
-
Foi ela! Ela é uma farsa! Um travesti maníaco e assassino! A senhora ouviu,
detetive. O nosso próprio papai disse isso!
-
Seu pai estava muito abalado. Este tipo de confusão é comum. Mesmo sem querer,
Jeitosinha era o pivô dos desentendimentos. Talvez por isso ele a tenha visto em
seu delírio. Agora... Que história é essa de
travesti?
Alessandra
dirigiu a pergunta a Marilena.
-
Arlindo está tentando confundi-la, detetive.
A
mãe não perdeu a chance de socorrer a filha naquele momento
dramático.
-
Quer comprovar? Disse Jeitosinha, contando com a negativa de
Alessandra.
-
Não é preciso, querida. Sei bem como são os homens. Estão sempre tentando
encontrar algum defeito nas mulheres bonitas...
Alessandra
dirigiu-se aos assistentes e ordenou:
-
Levem-no. Vamos esperar o exame da letra no bilhete e das marcas no copo. Você
vai aguardar na cadeia o resultado, Arlindo. E caso se comprove a evidência, não
sairá de lá tão cedo.
Debatendo-se
e gritando, o cruel Arlindo foi recolhido ao camburão. Os policiais deixaram a
casa e Marilena finalmente demonstrou sua dor num choro convulsivo. Na verdade
sentia-se aliviada pelo fim de Ambrósio, mas não se conformava com o fato de que
um de seus filhos tivesse assassinado o homem.
-
Jeitosinha... Por que Arlindo tentou
incriminá-la?
-
Você sabe que ele me odeia, mamãe.
Jeitosinha
estava calma e segura. Beijou suavemente o rosto de Marilena e foi para o
quarto, já pensando no próximo ato de seu circo de horrores.
Não
deixe de ler os últimos capítulos da história mais
trash!