A
reação de Ambrósio
Capítulo
XXIII
Por
trinta segundos, que, pareceram uma eternidade, Jeitosinha e Ambrósio se
encararam fixamente. Ela vinha aprendendo no bordel de Madame Mary tudo sobre a
arte da dissimulação, e conseguiu camuflar o medo, a surpresa e a confusão
mental que lhe causava a imagem ali na sua frente do homem que
assassinara.
A
expressão de Ambrósio era inocente, quase infantil. O fio de baba intermitente
continuava a banhar-lhe o queixo. Com sua voz pastosa, após o constrangedor
silêncio, ele perguntou:
-
Quem é você?
Jeitosinha
suspirou aliviada. Continuava sem entender o que havia acontecido. As marcas de
cortes no rosto e braços de Ambrósio indicavam que ela realmente o havia ferido,
mas talvez não tivesse consumado o crime, pensou; talvez tenha sofrido alguma
espécie de alucinação durante o ataque com a serra elétrica. Talvez Ambrósio
tenha conseguido sair da casa, se arrastando.
Mesmo
assim, quem limpara o chão e os móveis? Nada disso era tão importante quanto o
fato de que o pai, talvez pelo choque de ter sido vitimado pela própria filha,
não conseguia reconhecê-la.
-
"Deve ser algum tipo de defesa emocional". Concluiu.
Muito
mais desconfortável, com a situação estava Arlindo. Seu plano de explorar a irmã
se esvaziara, em parte, com a reação do pai ao vê-la. Se Ambrósio não reconhecia
Jeitosinha, e havia perdido sua índole opressora, o que a irmã teria a
temer?
De
fato, a moça não tinha mais nada a perder. Depois da decepção com seu amado
Bruno, e todas as emoções que tomaram sua vida de assalto, o futuro se
configurava diferente. Ela trocou olhares com Arlindo. Sorriu, superiora, e ele
entendeu o recado. Jeitosinha estava livre de sua influência maligna, mas,
curiosamente, não pensava em abandonar o bordel de Madame
Mary.
A
misteriosa mulher que ela mal vira e que não poderia reconhecer sob a máscara,
de alguma maneira fez com que recuperasse sua auto-estima. Na casa de encontros
a aceitavam como ela era. E agora havia ainda Laura Crowford, a linda ruiva que
havia despertado estranhas emoções em Jeitosinha. Ela vinha, aliás, fazendo um
esforço sobre-humano para esquecer Bruno, e tentava se apegar à emoção daquela
tarde de prazer como se residisse ali a sua salvação.
Se
Jeitosinha agora via o bordel como uma benção, isso não significava que ela
perdoava Arlindo. Ao contrário, havia planejado para o irmão uma terrível
vingança...
Quanto
aos pais, o próprio destino havia se encarregado da punição. Ambrósio era agora
um ser desprezível, débil e deformado. E sua mãe, que presa a suas convenções
sociais jamais encararia a separação, estava condenada a aturar aquele ser
repugnante pelo resto de suas vidas. Jeitosinha estava imersa neste tipo de
reflexão quando alguém bateu a porta. Arlindo foi atender e deparou-se com uma
morena exuberante, de mais ou menos trinta anos. Ela tinha cabelos negros e
lisos, a altura dos ombros. Os olhos de um azul cristalino contrastavam com a
pele clara. Mostrando um distintivo ela se apresentou:
-
Sou a detetive Alessandra, da Polícia Civil. Vim investigar o desaparecimento de
Ambrósio.
Todos
na casa inclusive, Ambrósio trocaram olhares surpresos.
Do
outro lado da cidade, o angustiado Bruno toma sua decisão. Virando a arma em
direção à própria cabeça, ele finalmente aperta o gatilho.
Ele
morreu?
Ele
morreu?
Descubra
lendo mais um capítulo de
“Jeitosinha”!