Será
que Bruno e Adenair são...
Capítulo
XVIII
Ambrósio
não conseguia se lembrar exatamente quem ele era. Imagens confusas de um
travesti loiro com uma moto serra lhe vinha a mente, enquanto ele reconhecia
alguns trechos do caminho. Acabou chegando até a porta de sua casa, mas não teve
coragem de entrar, especialmente porque não tinha a menor idéia de que lugar era
aquele. Viu que dois homens jovens conversavam, sentados num banco da varanda. O
dia estava quase nascendo. Do outro lado da rua, Ambrósio reconheceu algo de
familiar naquele rosto. Mas quem seria? Aliás, quem seria ele
mesmo?
O
homem subitamente percebeu que sequer podia lembrar-se de sua própria face.
Procurou algum vidro ou espelho onde pudesse se ver refletido. Numa grande e
quieta poça de água, viu sua cara monstruosa. Com um grito aterrador correu rumo
a um matagal próximo. Estava confuso e com medo.
Bruno
e Adenair ouviram o grito, mas não deram muita
importância.
-
Você pode se abrir comigo, Bruno. Sei tudo a respeito de
Jeitosinha.
-
Tudo? Surpreendeu-se.
-
Sim... Ela é uma vítima, tanto quanto você...
Pelo
comentário, Bruno percebeu que talvez Adenair não soubesse que a irmã era uma
prostituta.
-"Se
ela conseguiu me enganar, porque não enganaria o irmão?"
Perguntou-se.
Tombando
diante da pressão, Bruno chorou convulsivamente. Adenair puxou-o em direção ao
peito, abraçando-o e acariciando seus cabelos. Bruno pôde perceber que o toque e
o suave perfume do rapaz lembravam muito os de sua irmã. Sentiu-se confortável
por alguns minutos. Enxugando as lágrimas, Bruno viu bem de perto os olhos de
Adenair, tão parecidos com os de Jeitosinha. Só então se deu conta de que algo
estranho acontecia ali, o apoio que estava recebendo, mais físico e mudo do que
um simples diálogo, não é comum entre os homens.
-
Adenair, porque você me abraçou deste jeito? Perguntou, temendo
resposta.
Num
matagal a poucos metros, Ambrósio começava a se dar conta de quem era. Talvez
por um bloqueio, causado pela morte violenta ou pelo processo utilizado para
trazê-lo de volta à vida, não associava o travesti loiro a sua amada Jeitosinha.
Mas já sabia que ele era o chefe daquela casa que reconhecera, e que estava
deformado por alguma terrível razão, a mesma pela qual sentia-se impelido a
manter-se escondido.
Na
varanda da casa, Adenair começava sua revelação. Cada palavra pronunciada doía
como um parto.
-
Bem, Bruno... Também tenho um segredo...
Será
que Bruno e Adenair... Hummm... Será?
E
Ambrósio? Vai querer
vingança?