A
Grande Surpresa
Capítulo
XVI
Bruno
havia bebido a tarde inteira, buscando no álcool a coragem necessária para por a
prova sua masculinidade. Por isso mesmo, a imagem de Jeitosinha, naquele bordel
de luxo, observando-o em pleno ato de amor com um travesti, pareceu uma
alucinação ou um sonho.
-
Amor... Não é nada disso que você está pensando! Disse o rapaz, sem muita
inspiração.
Depois, recuperando a sobriedade, foi tomado por um tipo
diferente de perplexidade.
-
Mas... Espera aí... O que você está fazendo aqui? Perguntou Bruno à sua amada,
enquanto a prostituta, prevendo o barraco, saia de
fininho.
Cheia
de revolta, Jeitosinha disse a primeira coisa que lhe ocorreu para ferir
Bruno:
-
O que lhe parece? Pelo visto você prefere as morenas... Mas, nós as loiras somos
boas demais na arte de enlouquecer os homens...
-
Não pode ser, meu amor... Diga que é um sonho... Belisca-me para eu sentir dor e
acordar!
-
Depois do que eu vi pela fresta da porta, tem certeza de que não tem nada doendo
aí? Alfinetou jeitosinha, cheia de ironia.
-
Não! Você não! Não pode ser! Não pode ser!
Bruno
puxava os próprios cabelos com violência e rolava pelo chão num desespero
patético.
Jeitosinha
apenas jogou os cabelos longos para o lado, com aquele gesto superior com que as
loiras costumam descartar os simples mortais, e retirou-se do ambiente. Seu
coração por dentro estava em frangalhos, mas o que Bruno viu foi à imagem de uma
mulher fria.
Com
passos precisos e a elegância de um modelo, Jeitosinha atravessou o corredor e
voltou ao escritório de Madame Mary. Lá dentro, tombou de joelhos e começou a
chorar.
-
Não pode ser, Madame Mary... Meu amado Bruno... Um homem tão puro e íntegro...
Aqui! Com aquela... Aquela...
A
certeza de que não era tão diferente da exótica morena impedia Jeitosinha de
achar a palavra certa.
-
Os homens são todos iguais, minha criança.
Disse
Mary, acariciando a loira.
-
Uns animais capazes de qualquer coisa por um momento de luxúria. Eles nunca
saberão o que é o amor verdadeiro. É justamente isso que torna tão fascinante a
nossa arte de sedução...
Jeitosinha
levantou os olhos e, agarrando-se as pernas da misteriosa mulher,
implorou:
-
Ajude-me, Madame! Ajude-me a ser como você!
-
Claro, querida... Claro...
Madame
Mary sabia que tinha nas mãos um diamante em estado bruto. Um diamante pronto
para ser lapidado na dor de um coração
partido.